'Só fiquei esperando minha vez de tomar tiro e morrer'

Sobrevivente de chacina na zona sul de São Paulo conta que agora vive com medo de trabalhar perto de casa, na periferia

Entrevista com

CAMILA BRUNELLI, JULIANA DEODORO, WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2012 | 02h04

A chacina de quarta-feira no Jardim São Luiz, na zona sul, matou três pessoas, feriu outras três e mudou a vida de vários moradores da região. Um homem desceu da garupa de uma moto e atirou na frente de um bar. Um músico de 41 anos cantava músicas sertanejas no momento dos tiros. Ontem, ele conversou com o Estado e, por medo de represália, pediu anonimato.

O senhor conhecia as vítimas?

A pessoa que tomou 11 tiros (o autônomo Alexandre Figueiredo, de 39 anos) já tinha me visto cantar várias vezes. Ele gostava muito de música sertaneja bem antiga, Milionário e José Rico. Era dócil, superquerido. Uns 10 minutos antes dos tiros, ele levantou, veio na minha direção e me deu um beijo, dizendo que gostava do que eu estava cantando. Foi o último beijo que ele deu na vida. Brinquei e disse "ainda bem que tem pouca gente por aqui hoje, senão isso me difamaria". Estava todo mundo rindo, um clima gostoso.

E na hora dos tiros?

Dali a pouco, um cara covarde entrou com a arma atirando... Exatamente onde eu estava pegou uma bala na parede. A única coisa que fiz foi me jogar para o lado. E fiquei escutando muito tiro... Só fiquei esperando a minha vez de tomar tiro, a minha vez de morrer.

Como foi após os tiroteio?

Fiquei procurando tiros em mim. Meu coração doía e não sabia se tinha tomado um tiro ali. Olhei para o lado e acho que era o Marcos, que tomou um tiro na boca. Queria ligar para uns amigos, para algumas pessoas, mas não conseguia lembrar onde tinha deixado meu telefone. Você não consegue reagir, não consegue fazer nada. Meu medo era tanto que a polícia chegou e não conseguia sair da parte de trás do balcão. Fiquei com medo de o cara voltar. Quando fui embora, qualquer moto que parava ao lado eu queria sair arrancando com o meu carro.

Como será a sua vida daqui para frente?

Estou com medo de trabalhar em lugares abertos, na periferia, mais perto do lugar onde eu moro. Tenho confraternizações, festas de empresa para fazer, mas agora vou ter de pensar bem mais onde vou cantar. Não quero discriminar os lugares, mas a escolha será pela segurança mesmo.

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