Sítio arqueológico é achado na Ilha dos Búzios

Moradores encontraram ossada, além de oferendas funerárias e outros objetos, indicando que área pode ter sido usada para sepultamentos indígenas

REGINALDO PUPO , ESPECIAL PARA O ESTADO , ILHABELA, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2012 | 03h02

Moradores da Ilha dos Búzios, uma das que compõem o arquipélago de Ilhabela, no litoral norte paulista, descobriram na quarta-feira uma ossada sob uma rocha, indicando que ali ocorreram dois sepultamentos indígenas. No local também foram encontradas oferendas funerárias, como potes de barro, artefatos feitos em pedra polida e grande quantidade de coquinhos usados por essas populações como alimento.

A indicação de que ocorreram os sepultamentos é da arqueóloga Cintia Bendazzoli, do Instituto Histórico Geográfico e Arqueológico de Ilhabela (IHGAI). Segundo ela, vários elementos encontrados indicam existência de um grande sítio arqueológico na ilha, onde moram sobretudo pescadores artesanais. O acesso ao local é possível após viagem de 1h30 de lancha, a partir de Ilhabela.

"Trata-se de um sítio arqueológico indígena pré-colonial localizado dentro de um abrigo sob rocha, que estava na iminência da destruição completa, tendo em vista o volume de interferências", explica Cintia.

Segundo ela, apesar do ótimo estado de preservação dos ossos, intervenções anteriores acabaram descaracterizando a estrutura original dos sepultamentos. "Há vestígios arqueológicos espalhados por toda a área. Pela necessidade emergencial de medidas de preservação, removemos os esqueletos e artefatos para evitar maiores danos", diz a arqueóloga, que coordena o Projeto de Gestão e Diagnóstico do Patrimônio Arqueológico de Ilhabela (Gedai).

As pesquisas científicas realizadas em Ilhabela por meio do projeto têm contribuído para o entendimento dos processos de ocupação do arquipélago nos períodos colonial e pré-colonial. "Infelizmente não é raro encontrarmos locais parcial ou totalmente destruídos por ações interventivas feitas por curiosos ou caçadores de tesouros, que ainda não conseguiram compreender que a maior riqueza de Ilhabela é sua natureza, sua história e seu povo", afirma.

Segundo a arqueóloga, os achados podem revelar a presença de população indígena diferente dos já conhecidos sambaquieiros na Ilha dos Búzios, da qual ainda não se tinha notícia. Ela explicou que o material será periciado em laboratório para descobrir a data da ossada, usando a técnica do carbono 14. Dessa forma, ela pretende identificar a época em que viveram as pessoas dos esqueletos encontrados. "Não se trata de piratas nem de tesouros de piratas de qualquer natureza, mas sim populações indígenas que dominaram a costa antes do descobrimento do Brasil."

Segundo a prefeitura, os sítios arqueológicos são protegidos por ampla legislação e intervenção não autorizada caracteriza crime contra o patrimônio. "Qualquer pessoa que localize achados de natureza histórica ou arqueológica deverá comunicar o instituto ou a Secretaria de Cultura para que se possa realizar vistoria, cadastramento e pesquisas científicas nesses locais", alerta Cintia.

Toca da Caveira. O achado arqueológico foi batizado de Toca da Caveira. Além dele, segundo a arqueóloga, foram cadastrados mais dois sítios durante a etapa, que serão alvo de pesquisas futuras. O cadastramento dos sítios na Ilha dos Búzios deverá continuar neste mês. "Esperamos encontrar mais sítios de igual importância. Junto a essas ações, estão previstos trabalhos de educação patrimonial com a comunidade para evitar que novas interferências nos sítios ocorram, como se viu nesse caso."

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