JOSE PATRICIO/ESTADÃO
JOSE PATRICIO/ESTADÃO

Sistema Guarapiranga tem 30% menos água que o Cantareira

Manancial já responde pelo abastecimento da maior parte da capital, mas não pode operar abaixo de 20% da capacidade

Rafael Italiani e Fabio Leite, O Estado de S. Paulo

12 Março 2015 | 03h00

SÃO PAULO - O Sistema Guarapiranga, que desbancou o Cantareira do posto de maior produtor de água da Grande São Paulo em fevereiro, tem hoje um estoque disponível para captação 30% menor do que o manancial em crise. Além de somar 11,5 bilhões de litros a menos armazenados (dados desta quarta-feira, 11), o reservatório da zona sul da capital não pode operar abaixo de 20% da capacidade por limitações técnicas. 

Nesta quarta-feira, o nível do Guarapiranga estava em 71,6%, ou seja, haviam 122,6 bilhões dos 171,2 bilhões de litros que o sistema consegue armazenar. Já o Cantareira, que é sete vezes maior, mesmo com 13,7% da capacidade, incluindo duas cotas do volume morto, tinha 134,2 bilhões de litros. Mas, além de não ter reserva profunda, o Guarapiranga precisa operar com um volume mínimo de 20%, equivalente a 34 bilhões de litros, para não danificar as bombas que transferem água da represa para a estação de tratamento da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp).

De acordo com engenheiros consultados pela reportagem, se a água ficar abaixo do nível de segurança, há risco de entrar ar nas bombas (processo chamado cavitação), o que pode quebrar os equipamentos. A mesma precaução vale para outras represas que têm estações elevatórias de água, como a Paiva Castro, em Mairiporã, que pertence ao Cantareira, e a Taiaçupeba, em Suzano, do Sistema Alto Tietê.

Em 2014, quando teve início a crise hídrica, o índice mais baixo atingido pelo Guarapiranga foi 31,4%, no dia 10 de dezembro. Neste ano, o sistema já registra quase a mesma quantidade de chuva que o Cantareira e, em fevereiro, ultrapassou a produção do manancial, com 14,5 mil l/s, e passou a abastecer 5,8 milhões de pessoas, 200 mil a mais do que o Cantareira. Antes da seca, o maior sistema paulista produzia 32 mil l/s e atendia 8,8 milhões de pessoas.

Em setembro deste ano, a Sabesp quer aumentar para 16 mil l/s a produção do Guarapiranga, para avançar mais sobre bairros abastecidos pelo Cantareira. Para que o período de estiagem, que começa em abril, não ameace a capacidade da represa, a companhia prevê aumentar em 3 mil l/s a transferência de água dos rios Capivari e Juquiá para a represa, por meio de obras emergenciais. Segundo a Sabesp, “esta ampliação de capacidade de produção aumentará a segurança hídrica do sistema”.

A Sabesp afirma ainda que o aumento na produção do Guarapiranga “é resultado de uma série de ações” adotadas na crise, “como interligação de mananciais, que reduziram a dependência do Cantareira, e o bônus criado para quem diminui o consumo de água”.

Acostumados. Em 2000, na última crise do Guarapiranga, a Sabesp decretou racionamento para 3,2 milhões de pessoas quando a represa tinha 40% da capacidade. Na ocasião, o nível chegou a 19,2%. Os moradores da zona sul paulistana dizem que já estão acostumados com a falta de água na região nas últimas décadas. É o caso do eletricista Antonio Santos, de 54 anos, morador do Jardim São Luís. “Eu convivi com uma situação bem pior do que a de hoje. Foi a época mais difícil da minha vida, e a população acabou se adaptando.”

Já o diretor de licitações Eduardo Camilo, de 27 anos, que veleja na represa, teme que o reservatório um dia seque. “A água daqui já não é suficiente para toda a população que precisa da Guarapiranga.”

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