Shoppings vencem na 'disputa' dos cinemas

Segundo estudo, 85% das poltronas de São Paulo estão nesses centros comerciais, escolhidos pela praticidade e segurança; salas de rua são 11%

Ana Bizzotto, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2010 | 00h00

  Preferência. Clara detesta cinema de shopping e gosta de ver filmes ‘sem interferências’      

 

Já parou para pensar como estão distribuídas as 67.392 poltronas de cinema de São Paulo? Quem prefere assistir aos últimos lançamentos em uma das salas disponíveis nos shoppings centers certamente tem mais opções. Um estudo do geógrafo Eduardo Baider, da Universidade de São Paulo (USP), constatou que 85% das poltronas da cidade estão localizadas nos cinemas Multiplex, enquanto os cinemas de arte reúnem 11% dos assentos.

"A concentração dos cinemas nos shoppings decorre da interiorização do lazer e da privatização da vida social, baseada no discurso de que as ruas são perigosas", explica o geógrafo. Os cinemas de bairro são ainda mais raros: são 590 poltronas, 1% do total. Cineclubes e salas especiais de exibição completam a lista, com 3% das poltronas. As salas eróticas não foram consideradas no estudo.

Perfil. Dos cinemas Multiplex, apenas o Bristol, o Kinoplex Itaim e o Marabá estão fora de shoppings centers. A rede Cinemark, que em 2009 recebeu cerca de 32 milhões de espectadores em todo o País, administra mais de 50% das poltronas disponíveis em São Paulo. São 137 salas em 16 complexos localizados nos shoppings. O crescimento das redes de cinemas Multiplex, segundo Baider, acompanha a multiplicação de shoppings e sua expansão por todas as regiões da cidade.

"Os grandes cinemas de rua que se concentravam na região da Avenida São João e que tiveram o seu auge na década de 50, entraram em decadência com a popularização do automóvel e da televisão", afirma o geógrafo. "Esse declínio, que ocorreu a partir da década de 60 e cujo auge foi na década de 70, coincide com início da concentração de cinemas em espaços fechados, com grande capacidade de absorção dos automóveis."

Frequentadores. Além de mapear os espaços de exibição, Baider relacionou o perfil dos frequentadores com o local do cinema, a partir de 150 entrevistas in loco. "O frequentador de shopping, de maneira geral, vê o cinema como lazer", avalia. "Se preocupa menos com o que vai assistir e se apropria de forma superficial e efêmera do produto cinematográfico."

O engenheiro Sergio Mendes Monteiro, de 59 anos, só vai ao cinema com a família em shoppings, principalmente no Villa-Lobos. "É uma questão de comodidade, fica a cinco minutos de casa, então é mais fácil", justifica. As opções de filme no shopping, segundo ele, também têm mais a ver com o seu gosto do que a programação dos cinemas de rua. "Se for para ver um filme muito intelectual, para me encanar, prefiro ficar em casa."

A bancária Vanessa Rodrigues, de 30 anos, também só frequenta cinema em ambientes fechados. "Nunca fui nesses cinemas de arte. Não tenho interesse e o shopping fica perto de casa. O ingresso é um pouco caro, mas vale a pena", diz.

Já os frequentadores dos cinemas de arte, segundo Baider, apropriam-se de forma mais densa do filme. "Isso induz a uma apropriação mais sólida do próprio espaço de exibição."

A artista plástica Clara Ianni, de 22 anos, é frequentadora assídua desses cinemas de arte. "Detesto cinema de shopping. Quando vou a um cinema de rua, o programa é ir ao cinema, sem outras interferências", observa.

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