Sexo entre Neotrogla

Os Neotrogla, brasileiros recém-descobertos, praticam o sexo de maneira surpreendente. Esses insetos, que medem entre 2,7 e 3,7 milímetros, foram descobertos por pesquisadores da Universidade Federal de Lavras, em Minas Gerais. Os Neotrogla vivem em cavernas, um ambiente onde o alimento é escasso, e dependem dos morcegos para se alimentar. Os insetos se alimentam das pilhas de fezes que acumulam nos locais onde os morcegos descansam durante o dia.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2014 | 02h06

O que primeiro chamou a atenção dos cientistas foi a anatomia da genitália dos Neotrogla. As fêmeas possuem pênis e os macho, vaginas. Isso mesmo, uma inversão do que é observado na grande maioria dos animais.

O pênis das fêmeas (chamados gynosomos) são eréteis e possuem um canal que liga sua extremidade ao local onde a fêmea estoca os espermatozoides. A superfície do pênis tem estruturas semelhantes a espinhos. Já os machos, que produzem os espermatozoides, possuem orifícios onde o pênis da fêmea se encaixa, semelhante a uma vagina.

Mas como seria o coito entre os Neotrogla? E lá foram os cientistas, caverna adentro, com suas lanternas, tentando capturar os insetos em ação. O que eles descobriram é que a inversão é total. O macho fica por baixo e é montado por traz pela fêmea, que introduz seu pênis na vagina do macho. O gynosomo da fêmea incha após a penetração, o que faz com que os espinhos ancorem o gynosomo no interior do macho. O macho não pode escapar. E, surpresa total, o coito é extremamente longo, podendo durar de 40 a 70 horas. Isso mesmo, mais de dois dias (aparentemente um recorde mundial). A união é tão forte que, quando os cientistas tentavam separar o casal, os insetos se partiam ao meio.

Durante esse longuíssimo coito, a fêmea coleta com seu pênis (lembre que nesse caso os espermatozoides entram pela extremidade do pênis e se dirigem para o interior da fêmea) uma grande quantidade de espermatozoides. No início do coito, os espermatozoides são estocados na espermateca, pequenos sacos presentes em muitos insetos. Quando a espermateca está preenchida, o restante dos espermatozoides é digerido e utilizado como alimento pela fêmea. Ela não só recebe os espermatozoides necessários para a reprodução, mas também recebe (ou suga) do macho uma dose de alimento. Um presente singelo oferecido durante o coito.

Mas como explicar essa inversão na anatomia do aparelho genital? Darwin postulou um mecanismo que chamou de seleção sexual para explicar o aparecimento de caracteres secundários complexos nos machos (o rabo do pavão, as cores dos peixes, e a juba do leão). A ideia é que, na competição pelas fêmeas, que geralmente escolhem o macho com quem querem acasalar, os machos de sucesso são os que apresentam características que agradam as fêmeas (como um belo rabo) e, por esse motivo, o processo de seleção leva ao aparecimento de estruturas cada vez mais complexas nos machos.

O que os cientistas imaginam no caso dos Neotrogla é que são as fêmeas que competem pelos machos. O macho escolhe a fêmea que terá o direito de sugar a parte dos espermatozoides que são consumidos como alimento. E como é o macho que escolhe a fêmea, é de se esperar que o processo de seleção sexual leve ao aparecimento de aparatos complexos nas fêmeas. Esta seria a razão da presença desse pênis complexo estar presente nas fêmeas.

A nova descoberta sugere que a rica biodiversidade brasileira é também rica em diversidade sexual.

É BIÓLOGO

Mais informações: Female Penis, Male Vagina, and Their Correlated Evolution in a Cave Insect. Curr. Biol. http://dx.doi.org/10.1016/j.cub.2014.03.022 2014

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