Seu endereço é um ponto de ônibus de São Paulo

A história de uma ex-professora que vive na rua; plano de metas prevê substituição de 46% desses abrigos

Edison Veiga, O Estado de S. Paulo

28 Março 2009 | 02h00

Durante 15 anos ela morou na pequena Polignano a Mare, paesino no sul da Itália cujo cidadão mais ilustre foi o cantor Domenico Modugno (1928-1994) - famoso pela música Nel blu dipinto di blu, popularmente conhecida como Volare. Desde o ano passado, a professora aposentada Daisy Seagliusi vive com a filha e duas cadelas em um ponto de ônibus. Pelo plano de metas de Kassab, 46% desses abrigos devem ser substituídos.

 

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Nascida em Bauru e criada em São Paulo, ela cursou magistério - "Naquela época, ser professora era a coisa mais linda!", suspira - e parte de uma faculdade de Filosofia. Trabalhava como professora de ensino primário e era bancária, quando se apaixonou por um comerciante italiano radicado na capital paulista. Casaram-se. "Já fui ‘rica’", se recorda, com um sincero sorriso. "Tinha uma bela casa na Rua São João Clímaco (no Sacomã)."

 

O apogeu e a queda de sua fábula particular começou em 1986, quando o marido contraiu um câncer e decidiu que queria voltar para a Itália a fim de, como acreditava, cumprir o ciclo de morrer onde nasceu. "Não aguentaria ficar longe dele, então vendemos tudo e fomos", conta. E arrisca algumas parole no idioma de Dante Alighieri para provar ao repórter que, sim, ainda se lembra como se parla.

 

Cinco anos depois, o câncer a deixou viúva. Seguiu vivendo na cidadezinha. "Trabalhava como doméstica na casa de uma condessa", diz. "A bambina me tratava muito bem." Não se casou novamente. Vivia apenas com a filha, Carla, hoje com 32 anos. Foi ela, aliás, quem precipitou a volta a São Paulo.

 

Essa parte da história é contada de um jeito especial por Daisy. Ela repete, incansável, que mãe é mãe - e filha sempre merecerá o perdão. O fato é: Carla engravidou de um namorado italiano. "Então decidi que o melhor era virmos embora, para não passar vergonha lá na Itália", se justifica, cheia de valores pessoais. Por aqui, uma tragédia após a outra. "Sem nada, moramos de aluguel. Na Mooca, em Sapopemba e até em favela", narra.

 

"Minha filha se envolveu com um ‘vagabundo’ - pode escrever, meu filho, ‘vagabundo’ mesmo - e viemos parar aqui." Daisy conta que o sujeito as convenceu a deixar o barraco onde moravam, em uma favela em São Mateus, zona leste, e a se mudarem para um cortiço na Mooca. "Mas quando chegamos eu vi que era imóvel invadido, tudo irregular. Peguei minhas coisas e, em nome da dignidade, decidi que não iria viver ali."

 

Achou um ponto de ônibus por perto. "Fechou-o" com lona, colocou suas coisas lá dentro e, desde novembro, mora ali com a filha e as duas cadelas. "Só é ruim quando chove, porque vira um mar", reclama. Com problemas de mobilidade - teve uma infecção na perna e, depois de um tombo, quebrou os joelhos - anda de cadeira de rodas. Diariamente, conta com a caridade de vizinhos que lhe oferecem marmitas e até banhos. Seu maior sonho? "Queria voltar a ter um quartinho para mim. Porque só assim o juiz vai liberar minha netinha, que é linda e tem 7 anos, para voltar a viver com a gente", deseja. A neta está em um abrigo de menores.

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