Sete meses trabalhando no São Vito

Tido como ícone da degradação do centro de São Paulo, o Edifício São Vito, que começou a ser demolido na semana passada, não merecia a fama que tinha de "favela vertical". É o que dizem duas pessoas que percorreram por sete meses os 27 andares do prédio e conviveram com os moradores para realizar seus trabalhos: a documentarista Camila Mouri e o fotógrafo Gui Mohallem.

Márcio Pinho, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2010 | 00h00

Eles afirmam que o prédio ficou estigmatizado como um antro de prostituição, drogas e violência, mas era um edifício de pessoas de baixa renda com superpopulação - já abrigou cerca de 3 mil pessoas em suas quitinetes -, que vivia em relativa harmonia, apesar da enorme variedade e dificuldade de se organizar no espaço reduzido. Lembram ainda que em 2003, um ano antes de a Prefeitura determinar a desapropriação, o São Vito tinha estrutura de 20 empregados, segurança e até lojas.

Os muros pichados e as janelas de alguns apartamentos vazios quebrados, admitem, ajudava a desvalorizar o prédio e a dar a impressão a quem passasse pela Avenida do Estado de que ele cairia - daí o apelido de "treme-treme".

Como foi passar esses sete meses no São Vito? A má fama do prédio se justificava?

Camila: Eu sempre havia escutado histórias de horror. Mas a impressão foi melhor do que a imaginada, a de um prédio normal. Quando conseguimos entrar para fazer o trabalho - eles não deixavam ninguém entrar nem fazer reportagem -, vimos que tinham trauma e sofriam com o preconceito. Diziam que a situação havia melhorado muito em relação a episódios de violência da década de 1980. Tinha segurança na porta, mercearia e loja de alfaiate.

Mohallem: Tivemos de frequentar o local durante um mês para trazer os moradores para o nosso lado. Vimos que não tinha nada de favela. Os elevadores mais ou menos funcionavam, não tinha sujeira e 20 funcionários trabalhavam.

Vocês moraram no prédio?

Camila: Alugamos um apartamento onde guardávamos equipamentos e trabalhávamos. Mas eu não dormia lá. Era meu trabalho de conclusão de curso.

Alguma passagem marcou a experiência de vocês?

Camila: O mais marcante do São Vito é que aquelas pessoas viviam no prédio e no centro. Trabalhavam ali perto, no Mercado, na 25 de Março. Os filhos estudavam nas proximidades. Com a desapropriação, as pessoas tiveram de sair daquela região e foram para a periferia.

Mohallem: No aniversário de um morador, travesti, havia crianças, velhos, vizinhos, homens e mulheres juntos, comendo brigadeiro. Havia música alta e todo mundo celebrando junto. Fiquei muito impressionado com essa diversidade. Hoje se luta muito pela aceitação da diversidade, mas já era natural ali, há sete anos.

Como era a convivência?

Mohallem: Os apartamentos eram muito pequenos, famílias de oito moravam em uma quitinete. Por isso os corredores viravam espaços de encontro, onde as pessoas ficavam o dia inteiro e as crianças brincavam.

A falta de segurança era um problema no prédio?

Camila: Não havia um clima de medo. Um morador, o Gilmar, que é DJ, dormia de porta aberta durante o dia e não acontecia nada. As portas tinham grades, acredito que para ventilação. A situação do prédio nesse e em outros aspectos descambou um pouco quando os moradores souberam da desapropriação. Houve saques. Outro problema do prédio eram os apartamentos abandonados, onde estavam muitas das janelas quebradas. As portas deles, apesar de lacradas, eram arrombadas às vezes.

Vocês são a favor da demolição do São Vito?

Camila: Hoje não sei dizer direito sem conhecer o projeto para a área. Na época, achava melhor reformar para as famílias ficarem no local.

Mohallem: Sou contra a retirada das pessoas do São Vito, ainda mais com a promessa feita de que voltariam após uma reforma. Temo que seja uma política higienista, de tirar pobres do centro.

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