Servidora que mandou famílias carentes para invasão é exonerada

Funcionárias da Prefeitura encaminharam pessoas para prédio ocupado pelo MSTS em São Paulo; para Haddad, atitude é ilegal 

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

10 Setembro 2014 | 14h33

Atualizada às 21h45

SÃO PAULO - Funcionários da Prefeitura de São Paulo encaminharam para um prédio ocupado pelo Movimento Sem Teto São Paulo (MSTS), na região central, famílias carentes, para as quais até foram emitidos atestados de pobreza. Uma servidora envolvida no caso foi exonerada nesta quarta-feira, 10, pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS).

O caso foi revelado nesta quarta pelo Bom Dia São Paulo, da TV Globo. Pelo menos duas famílias apresentaram aos invasores do antigo Cine Marrocos um documento timbrado da Prefeitura que atesta que elas “não têm condições de contribuir com o rateio das despesas da ocupação”. Os documentos foram assinados por duas funcionárias da SMADS. 

O prefeito Fernando Haddad (PT) afirmou que a atitude é totalmente ilegal e garantiu que o caso será investigado. “Se houve esse tipo de conduta, que vai ser agora investigada, é um procedimento irregular. Se ficar comprovado que assinaram o documento, elas vão ter de responder por isso”, afirmou. “Jamais um servidor público pode ter esse tipo conduta, mesmo que tenha feito de boa-fé, é uma ilegalidade”, disse o prefeito.

De acordo com Haddad, famílias que buscam serviços públicos devem ser encaminhadas a abrigos pertencentes à administração municipal. “Servidor público tem de sempre conduzir quem quer que seja aos postos da Prefeitura”, afirmou.

Para reiterar que o encaminhamento ao prédio não deveria ter ocorrido, ele citou a criação de vagas em abrigos. “Nosso governo já ampliou em 26% o número de vagas para moradores em situação de rua”, disse. “Há abrigos para famílias.”

Na tarde desta quarta, a SMADS divulgou uma nota para informar que uma das funcionárias fora exonerada por se tratar de cargo de comissão. A outra servidora será investigada. A pasta afirmou também que “condena veementemente a conduta denunciada e vai apurar os fatos e tomar as medidas cabíveis”.


Repúdio. O secretário-geral do MSTS, Wladimir Ribeiro Brito, criticou a decisão de exonerar uma das funcionárias. “Não acho justo. A Prefeitura está transmitindo responsabilidade. A intenção das duas secretárias foi ajudar.” Ele disse que vai convidá-la para trabalhar no MSTS. O movimento vai fazer um protesto na frente da Prefeitura, mas o ato ainda não tem data marcada. 

Segundo Brito, foram encaminhadas pela Prefeitura, com declaração de pobreza, 37 famílias, das quais cerca de 15 ainda permanecem nas ocupações. Hoje, são sete invasões. O Cine Marrocos, que é um prédio da Prefeitura, foi invadido em novembro de 2013, por 80 famílias - no local vivem hoje 357. 

Nas primeiras semanas, segundo Brito, chegaram três Kombis encaminhadas pela Prefeitura com mais de dez famílias. “Se eu mostrar todos os papéis, vão demitir a secretaria inteira”, disse. A ocupação tem taxa de R$ 80 a R$ 200. Quem foi enviado pela Prefeitura inicialmente não pagava.

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