Helvio Romero
Helvio Romero

Sertanejo ganha espaço nos blocos de carnaval

Na tradicional época do samba, é o ‘ritmo da sofrência’ que garante eventos e ruas lotadas, até mesmo em São Paulo

Valéria França, Julio Cesar Lima e Alexandre Hisayasu, O Estado de S. Paulo

27 Fevereiro 2017 | 22h12

O que imaginaria Braguinha se, mais de 80 anos depois de Ô Balancê, visse a marchinha dar passagem para o sertanejo e o eletrônico no carnaval de rua? Hoje, ziriguidum bom é aquele que tem axé, samba, funk, música eletrônica e mais recentemente muito sertanejo – sim, o ritmo que antes desaparecia nesta época está arrebentando.

“A grande virada mesmo veio nos últimos dois anos, com as mulheres do sertanejo. Estou falando das novas divas, como Simone & Simaria”, diz a publicitária de cabelo rosa, descendente de japoneses, Nathalia Takenobu, de 31 anos, que cresceu ouvindo Luan Santana e Bruno & Marrone em Presidente Venceslau, no interior paulista. “Quando mudei para São Paulo, a única balada sertaneja era (na casa) Villa Country”, diz a organizadora do Pinga Ni Mim, o primeiro bloco sertanejo da capital, que levou ontem mais de 20 mil pessoas para a Avenida Hélio Pellegrino, na Vila Nova Conceição, zona sul.

E há muito que o sertanejo não é só música de viola exclusiva de áreas rurais do País. O trio elétrico do Pinga serviu até de palco para o pedido de casamento do bancário Paulo Barreto, de 25 anos, para a noiva, Rafaella Silva, de 22. “Conversei com amigos e achamos uma ótima ideia”, disse ele. O casamento deve acontecer em agosto “ao som de Jorge e Mateus (<do hit ‘Amo Noite e Dia’)”, garante.

A administradora Ana Paula Paggi, de 38 anos, fã de sertanejo, veio de São Bernardo do Campo com mais quatro amigas. “Adoramos os blocos de carnaval. Com sertanejo, fica melhor!”

E não é exclusividade paulistana. Na Bahia, o Camarote Salvador da Avenida Oceânica, em Ondina, de um lado oferece visão excelente do tradicional desfile dos trios elétricos, onde passam ídolos como Ivete Sangalo e Wesley Safadão. Do outro, dentro do camarote, acontece uma festa à parte. Em uma estrutura que lembra eventos como Lollapalooza, três palcos, em 10 mil m², concentram 60 atrações.

“Metade desses artistas é sertanejo. Na programação, temos nomes como Luan Santana e Marília Mendonça. Fizemos pesquisas de opinião e constatamos que, se não tiver esse gênero de música, perdemos público”, diz< Luciana Villas Boas, diretora da Premium Entretenimento. 

“Se o Rio tivesse ficado só nas marchas e nos sambas, os blocos tinham morrido. Agora tem lugar para todo mundo e a novidade é o sertanejo”, afirma a carioca Anna Vitória Gomes, gerente de varejo, de 29 anos. “Eu adoro música romântica. A ‘sofrência’ das coleguinhas está fazendo o maior sucesso”, diz, com referências às novas cantoras do sertanejo e seus hits, que agora puxam uma multidão, incluindo ela – que fará o circuito country baiano. 

Sertanejo carioca. Aliás, o sertanejo começa a emergir como ritmo dos camarotes e das ruas do Rio também. Na semana passada, João Lucas & Matheus arrastaram 500 mil pessoas para a Praia de Copacabana, entoando hits como 50 Reais, de Naiara Azevedo, e 10%, de Maiara & Maraisa, de cima do trio elétrico do bloco Chora Me Liga. 

Anteontem, a dupla de irmãos, de Ribeirão Preto (SP), repetiu o show no Jockey Club para 3 mil pessoas. “Há uma década, quando chegava o carnaval, saíamos de férias. Cinco anos atrás, começaram a nos chamar, mas tínhamos de misturar axé e forró. Hoje, o show é quase 100% sertanejo e durante todo o carnaval”, diz João Lucas, de 38 anos.

A busca por diversidade de ritmos também já faz muito folião aproveitar o feriado em mais de um destino. Na sexta-feira de manhã, a empresária paulistana Bel Pimenta, de 30 anos, pegou a ponte aérea para curtir o carnaval do Rio. Durante o dia, aproveitou os blocos e, à noite, festas eletrônicas e bares com os amigos. Ontem, embarcou para Salvador, para duas noites em camarotes. “Escolhi as datas que tinham shows de sertanejo. Eu amo.” Depois, volta ao Rio, para o desfile das campeãs na Sapucaí.

Bahia e Rio: eletrônico. O maior palco da Terra do trio elétrico é da balada eletrônica: uma boate fechada, inspirada em um club londrino, montada para receber 30 DJs nacionais e internacionais, como o disputado holandês Afrojack e a dupla Dimitry Vegas & Like Mike, que ano passado liderou o ranking do TOP 100 DJs. 

“O carnaval já virou data conhecida pelo aumento do trânsito de DJs internacionais no Brasil”, diz Juliana Ferraz, diretora de marketing da MChecon, acostumada a montar eventos como o Rock in Rio. Este ano, ela esteve à frente das cenografia do camarote Salvador, Club e Skol, na Bahia, além do N1 e Quem, no Rio. “Esses músicos vêm para o Brasil e rodam os Estados.” O holandês Afrojack, que se apresentou sábado em Salvador, também tocou domingo em Belo Horizonte e Rio; ontem, em São Paulo e Porto Alegre; e hoje estará em Florianópolis.

Falando nessa nova cultura, vale ressaltar ainda o Paraná, onde há o festival Psycho Carnival, que reúne bandas da cena mundial do psychobilly, além do Psicodália, festival de rock mais alternativo – com comando e público do pessoal de Curitiba. Ali, a festa cresce: já a crise atinge o Carnaval Eletrônico e o desfile do Bloco Garibaldis e Sacis – cancelados por falta de verba. 

Vista do Cristo. Por fim, no Rio a força da música eletrônica é maior ainda. Para se ter uma ideia, enquanto as escolas de samba desfilam na Sapucaí acontece o Rio Music Carnival, na Marina da Glória, evento de cinco dias com grandes expoentes do gênero. Antes de começar a folia, os ingressos já estavam esgotados. “Montamos uma tenda transparente e a pista tem vista para o Pão de Açúcar e para o Cristo. Cabem 10 mil pessoas”, diz Pedro Caldas, da agência New Fun. 

"O Axé se perdeu". No Nordeste, o carnaval de rua mudou. O risco de eu sair em Salvador na ‘pipoca’ (espaço em que ocorrem as exibições gratuitas, sem cordas e sem a necessidade de pagar pelo abadá) e levar um murro na cara é grande. Eu quero me divertir em segurança. Procurei o Camarote Salvador porque tem ar-condicionado, serviço de bar com todos os tipos de bebidas e drinques, além de diversidade musical.

O axé perdeu a força que tinha. Precisa ser reinventado. Você ouve os mesmos hits há uma década, ou seja, ainda são as músicas do tempo do meu pai. Hoje o trio que puxa mais gente é o do (Wesley) Safadão. Mas isso não acontece só aqui na Bahia. Ninguém vai para o Recife curtir o frevo, por exemplo. O forte lá é Latino e Jorge e Mateus.

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