Senhas e fura-fila para ver o júri

Cerca de 50 pessoas esperavam a oportunidade de entrar, em um revezamento a cada 2h30

Paulo Sampaio, O Estadao de S.Paulo

23 Março 2010 | 00h00

Um bolinho de mulheres inquietas aguarda nos primeiros lugares da fila para assistir ao julgamento do casal Nardoni, que começou ontem no Fórum de Santana, zona norte de São Paulo. Elas esperam pela distribuição de senhas e já há controvérsia sobre a ordem de chegada. Fala-se em "furonas de fila": "Eu acho que a justiça tem de começar do lado de fora do tribunal", afirma, orgulhosa da tirada, a estudante de Psicologia Uiara Correa da Silva, de 29 anos, que diz estar ali desde as 8h30.

Uma das suspeitas de querer passar na frente é a estudante de Direito Paula Quirino, de 27 anos, grávida de sete meses. "O artigo 5º da Constituição diz que eu tenho precedência. Mas eu não vou criar confusão", diz Paula. O artigo 5º versa sobre os direitos de todos os cidadãos; o das grávidas está em algumas leis municipais e estaduais (e não há nada específico com relação a filas para pegar senhas em tribunais).

Paula diz que, em sua faculdade, assistir ao julgamento vale por 40 horas de aula ("o semestre tem 50"). "Posso convalidar as aulas, entende?", diz ela, piscando um olho. "Mas eu não estou aqui só por isso, lógico."

São cerca de 50 pessoas na espera, mas, até o 23º colocado, só há mulheres. Uma moça loira toda de branco distribui camisetas com a imagem de Isabella; ela não quer se identificar, mas, comenta-se, é a namorada de Felipe Oliveira, irmão da mãe de Isabella. É mesmo? "Eu tenho direito de não responder", diz ela.

O começo do julgamento estava marcado para as 13 horas, mas são 15 horas e não há garantia de que todos vão entrar. A comerciante Lucimeire Nappo, de 42 anos, quinto lugar na fila, desliga o celular dizendo que falou com Andréa, "a secretária do juiz" (Maurício Fossen).

"A Andréa tá descendo daqui a pouco com as senhas", anuncia Lucimeire que, logo, se torna uma espécie de porta-voz informal do meritíssimo.

Revezamento. Com notícias quentinhas passadas por Andréa, Lucimeire informa que o acesso vai se dar em turmas de dez e que o revezamento acontecerá nos intervalos do julgamento. Esses devem durar cerca de 3 horas. Isso significa que a advogada piauiense Shardenha Vasconcellos, de 35 anos, 36ª na fila, vai esperar seis horas "para ver a cara deles (Anna Carolina e Alexandre)": mas já são 16 horas, e o voo de Shardenha de volta para Teresina está marcado para as 23 horas. "Será que eu consigo pegar o avião?"

Na calçada, grupos de manifestantes levantam cartazes com dizeres como "Família Monstro Assassino Nardoni". Mas ninguém tem espírito de vingança. "Só queremos justiça", diz a aposentada Leonina Ananias Silva, de 60 anos.

A enfermeira Natália Martins, de 51 anos, integra o grupo "Heal the World" ("Cure o Mundo"), cujo título é inspirado na música de Michael Jackson para o disco Dangerous. Os integrantes do grupo usam camisetas com estampas de fotos de Jackson, que não parece o personagem mais apropriado o momento. "A mídia suja o nome dele com a história de pedofilia. As pessoas não procuram saber quem foi Michael", diz.

De repente, uma vaia. "Uuuuu." É para o advogado Antônio Nardoni, pai de Alexandre, que chega de táxi e passa rápido em direção à entrada.

"Que palhaçada!", diz o engenheiro Carlos Torres, de 56 anos, indignado com o evangélico Orlando Torres, cuja cantoria altíssima já não surpreende em eventos de repercussão.

"Deus me dá um toque, eu vou. Vi o Maluf reclamando do marmitex na cadeia, levei a Bíblia. Percebi que o alimento que faltava era espiritual", afirma ele.

No restaurante da esquina, aparece o "cristo" André Luiz dos Santos, de 49 anos. Lépido, ele apoiou por um tempinho a cruz que carrega em seu manifesto e foi comer um "PF". "Não quero ser tachado de Jesus. Sou um cidadão como qualquer outro."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.