'Sempre fui cético sobre aquecimento', diz cientista

O debate sobre a mudança climática costuma ser explosivo e os protagonistas raramente mudam de lado. No mês passado, Lennart Bengtsson, ex-diretor do Instituto Max Planck de Meteorologia, na Alemanha, um dos mais importantes centros de pesquisa do clima, anunciou que passará a integrar o conselho consultivo da Global Warming Policy Foundation (GWPF), criada em 2009 na Grã-Bretanha pelo político conservador Nigel Lawson para contra-atacar o que considerou uma preocupação exagerada com o aquecimento global. As teses do grupo diferem completamente daquelas do painel sobre o clima das Nações Unidas, o IPCC, cujo mais recente relatório destaca que as emissões de gases de efeito estufa estão levando a um aquecimento global com sérias consequências para o meio ambiente. Bengtssom era conhecido por manter uma posição moderada. Agora, foi para o lado dos incrédulos.

Entrevista com

AXEL BOJANOVSKI / DER SPIEGEL, O Estado de S.Paulo

18 Maio 2014 | 02h04

Por que o senhor decidiu se unir à Global Warming Policy Foundation?

É importante que se instaure um amplo debate sobre energia e clima. Precisamos urgentemente explorar maneiras realistas de fazer frente a diferentes desafios científicos, técnicos e econômicos na solução dos problemas de energia do mundo e das questões ambientais associadas.

Por que o senhor acha que o GWPF está particularmente qualificado para atingir tal meta?

Muitos dos membros da fundação são economistas e esta é uma oportunidade que tenho de aprender com pessoas qualificadas e ativas em áreas fora da minha própria especialidade. Ao mesmo tempo, poderei contribuir com meus conhecimentos no campo da meteorologia, para ampliar o debate.

Os membros do GWPF não são conhecidos por mudar de opinião. O senhor tornou-se o que se chama de um cético do clima?

Sempre fui cético e acho que muitos cientistas realmente o são.

Mas o senhor não foi um dos que soaram o alarme há 20 anos? A sua posição naquela época estava errada?

Não mudei de opinião em um nível fundamental. Jamais me considerei alarmista, mas um cientista com um ponto de vista crítico e, neste sentido, sempre fui cético. Consagrei grande parte da minha carreira ao desenvolvimento de modelos para previsão do tempo e nesse trabalho aprendi a importância de confirmar as previsões em relação ao clima observado. Este é um método que defendo vigorosamente para as "previsões climáticas". É fundamental confirmar os resultados dos modelos, especialmente quando lidamos com sistemas complexos como o clima. É essencial trabalhar de modo adequado, se quisermos que as previsões sejam consideradas confiáveis.

O senhor acha ser necessário para a pesquisa do clima algum trabalho neste aspecto?

O frustrante é o fato de a ciência do clima não ser capaz de confirmar suas simulações corretamente. Desde o fim do século 20, o aquecimento da Terra tem sido muito menor do que os modelos climáticos mostram.

Mas o relatório do IPCC discute este problema...

Sim, o relatório científico o faz, mas na minha opinião não de modo suficientemente crítico. Ele não menciona a grande diferença que existe entre resultados de observação e simulações de modelos. Tenho total respeito pelo trabalho científico que constitui a base dos relatórios do IPCC, mas não entendo a necessidade de consenso. É importante, e eu diria essencial, que a sociedade e a comunidade política também tenham conhecimento de áreas onde o consenso não existe. Buscar um procedimento simplista numa área tão complexa e não completamente compreendida como o sistema climático não tem nenhum sentido, na minha opinião.

No passado o senhor lamentou o que descreveu como a forte tendência a uma politização na pesquisa climática. Por que o senhor se uniu agora a uma organização com um caráter inerentemente político?

Em toda a minha vida fui fascinado pela previsibilidade e frustrado com a nossa incapacidade de prever. Não tem sentido a nossa geração acreditar ou fingir acreditar que pode resolver os problemas do futuro porque ela não sabe quais serão esses problemas. Simplesmente faça este experimento: imagine que você está no mês de maio de 1914 e tentando definir um plano de ação para os próximos 100 anos. Nada do que for feito terá sentido.

Então sugere que devemos continuar da maneira usual porque as previsões são complicadas?

Não. Acho que a melhor, talvez a única sensata, política para o futuro é preparar a sociedade para a mudança e estar pronto para uma adaptação. Em 25 anos teremos um mundo com uma população de 9 a 10 bilhões, o que exigirá duas vezes mais energia primária do que hoje. Precisamos aceitar as novas ciências e tecnologias de maneira mais positiva do que observamos hoje na Europa. E isso inclui, por exemplo, a energia nuclear e a produção de alimentos transgênicos para oferecer ao mundo o que ele necessita urgentemente. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

O meteorologista sueco Lennart Bengtsson, nascido em 1935, foi diretor do European Center for Medium-Range Weather Forecasts, na Inglaterra, de 1981 a 1990. Depois, assumiu como diretor do Instituto Max Planck de Meteorologia, em Hamburgo. Desde que se aposentou, em 2000, é professor na Universidade de Reading, na Inglaterra. Recebeu inúmeros prêmios e seu trabalho se concentra em modelos climáticos e meteorologia.

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