''Sempre cuido para não comprar roupas com o mesmo modelo''

Lucas de Abreu Maia

, O Estado de S.Paulo

20 Janeiro 2011 | 00h00

REPÓRTER DO "ESTADO"

"Volta e meia me perguntam como faço para escolher minhas roupas sem enxergar (fico em dúvida se isso quer dizer que me visto muito bem ou muito mal). Não há uma resposta única. Da mesma forma que pessoas normovisuais (que enxergam) têm diferentes maneiras de organizar os armários, as cegas encontram formas diferentes de distinguir as roupas.

No meu caso, tomo o cuidado de nunca comprar camisas, calças e gravatas com o mesmo modelo. Assim, sempre terá uma gola, um bolso, um botão ou uma textura que me permita reconhecer as peças.

Claro que uma etiqueta em braile poderia facilitar isso, mas dificilmente um cego sairia para comprar roupas sozinho (você compraria uma camisa só porque o vendedor disse que "ficou ótimo em você?" Nem eu). Por isso, as etiquetas seriam de pouca ajuda na hora da compra. Mesmo assim, um sinal em relevo que facilite a descoberta da cor, do tamanho ou do tecido de uma determinada peça ajudaria no processo de reconhecimento.

Daí não segue, porém, que a regulamentação pelo Congresso das etiquetas nas peças de roupa devesse ser uma prioridade. É justo que pessoas cegas tenham o mesmo nível de acesso à informação que normovisuais, mas começar o esforço por mais acessibilidade pelas etiquetas de roupas é, no mínimo, uma tremenda falta de foco. Os cegos que vão a farmácias e supermercados sozinhos ainda precisam de ajuda para encontrar o que querem comprar. Eu mesmo já deixei de me medicar por não conseguir identificar os comprimidos. Se não há sequer normas para regulamentar a etiquetação em braile de remédios e comida, será que roupas deveriam mesmo ser a prioridade?

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