Sem-teto vende foto por R$ 1,5 mil

Principais itens de leilão na Villa Daslu eram trabalhos de dez moradores[br]de rua; venda de obras de amadores e profissionais arrecadou R$ 85 mil

Felipe Grandin, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2010 | 00h00

Um grupo de dez ex-moradores de rua foi o centro das atenções na noite de anteontem em um maiores símbolos do luxo da cidade de São Paulo, a Villa Daslu, no Itaim-Bibi, zona sul. Eles e suas fotos foram as principais atrações do leilão promovido pelo Instituto Brasis. O evento arrecadou R$ 85 mil com a venda de 61 fotografias.

Foi o ápice do projeto Trecho 2.8, que tira pessoas da rua por meio da fotografia. O leilão reuniu imagens feitas pelos participantes da iniciativa e por fotógrafos consagrados, que doaram suas obras. Metade da renda será transferida aos integrantes do projeto, para que consigam se firmar fora das calçadas. A outra fica com o instituto, para investir em novas turmas e abrir uma empresa que venderá as fotos e os serviços dos profissionais.

O projeto é do Instituto Brasis, criado em 2009 em parceria com o Instituto Gens de Educação e Cultura. A iniciativa é coordenada pelo psicólogo Edson Fragoaz e a doutora em Comunicação Grácia Lopes Lima.

A cada martelada do leiloeiro James Lisboa, os sorrisos brilhavam nos novos fotógrafos, que planejavam o que fazer com o dinheiro. "Vai dar para comprar minha câmera, um laptop e um sofá para a minha casa", disse Sebastião Nicomedes, de 42 anos.

"Esse é o próximo Sebastião Salgado do mercado", dizia o leiloeiro, enquanto promovia a foto Vira lata, de Nicomedes. O elogio funcionou e, após 15 lances, o valor do quadro passou de R$ 600 para R$ 1.250. Sebastião acabou sendo o campeão de vendas, com R$ 5 mil em lances pelas suas cinco fotografias e também o que recebeu o lance mais alto entre os colegas: R$ 1,5 mil pela foto República. "Não acreditei. Pensei que ia conseguir vender uma foto e sair com R$ 300."

A peça mais cara de Sebastião foi comprada por Marco Cauduro, sócio da Arbela Investimentos. "Acompanho o projeto porque sou sócio do Marcos (Amaro, presidente do Instituto Brasil)", disse. "Mas não foi uma doação cega. Percebi valor artístico nessas fotos e escolhi o trabalho que achei melhor."

Entre as obras de fotógrafos profissionais, Estudo em Azul, de Marcos Piffer, foi a que recebeu o lance mais alto, de R$ 7,2 mil. "Tinha estudado as fotos antes do leilão, mas foi no calor do momento que eu escolhi essa", disse o comprador José Moraes, sócio da corretora de seguros Galcorr.

Diferenças. A disparidade social entre os autores das fotos e dos lances era evidente. "O que são R$ 600? É um jantar, um vinho, um preço simbólico", dizia Lisboa para convencer os compradores.

Outra fotógrafa amadora, Carol Garcia custava a acreditar no que havia acontecido. "Quando escolhi as fotos, não achei que ia vender", disse ela, que pretende se especializar na profissão.

Marcio Passos também era só sorrisos ao lado da companheira de vida e de fotografia, Edione Ferreira. "Não esperava. Se vendesse uma, já estava bom. Vendemos todas", disse ele, que morava no Brás e conseguiu alugar um apartamento. Questionado sobre o que faria agora, mostrou orgulhoso o crachá com sua foto e a inscrição "fotógrafo".

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