Evelson de Freitas/Estadão
Evelson de Freitas/Estadão

Sem-teto se aglomeram em nova invasão

Famílias despejadas na terça-feira improvisam cômodos com lençóis, juntam pertences e tentam retomar suas vidas

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

18 Setembro 2014 | 03h00

SÃO PAULO - Há dois dias, basta a pequena Júlia Victória, de 2 anos, ver uma câmera para se esconder. “O que ela mais gostava de fazer era tirar foto”, diz a mãe, a auxiliar de limpeza Leiliane Pereira, de 27 anos. A rejeição tem motivo. Júlia morava na invasão do Hotel Aquarius, na Avenida São João, e presenciou o confronto na reintegração de posse. Ela foi retirada às pressas, em meio a bombas de gás, de um lado, e objetos atirados pelas janelas, de outro. Ao sair, só o que via eram filmadoras e máquinas fotográficas.

Com os pais e o irmão, Júlia recebeu abrigo em outra ocupação da Frente de Luta por Moradia (FLM), na Rua Líbero Badaró, também no centro. No local, pedaços de pano foram estendidos como se fossem paredes: uma tentativa de garantir a privacidade. Para dormir, o casal e as crianças se espremem em dois colchões. Roupas, camas, fogão, geladeira, estantes e documentos ficaram para trás. Sobraram cinco ursos de pelúcia. “Se era para perder alguma coisa, que não fosse nada dos meninos”, disse Leiliane.


No novo endereço, as crianças são muitas. Há idosos e gestantes também. Porém, reclamações são poucas. “Tenho um teto para dormir. O dia de chorar foi ontem, agora é sorrir”, disse Raquel Germano, grávida de 5 meses.

Revolta. A dor da vendedora de tapioca Eli Sarai, de 44 anos, é ver a filha o dia inteiro sentada no colchão e não poder fazer nada. Deficiente por causa de uma paralisia cerebral durante o parto, Jaquelaine Dias, de 17 anos, teve a cadeira de rodas quebrada na reintegração. 

“Foi um cenário de guerra, pensei que a gente ia morrer”, diz a mãe. Eli contou que a filha passou mal por causa das bombas de gás e foi retirada por moradores. Jaquelaine precisou ser levada nos braços. Após procurar atendimento na Santa Casa, no centro, a mãe teria voltado para recuperar a cadeira. “Os policiais me disseram que tinha sido jogada em um caminhão, toda quebrada.”

Sem a cadeira de rodas, Eli tem dificuldade até para levar a filha, que não anda nem fala, ao banheiro. “Não sei como vai ser para dar banho.

Com a nota fiscal, mostrou que o equipamento custou R$ 1,3 mil em 2012. “Um pastor doou parte do dinheiro e meus amigos fizeram um rifa para conseguir o resto.” 

Mais conteúdo sobre:
São Paulosem-teto

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.