André Lessa/AE
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Sem-teto ocupam 5 prédios no centro

As 2,5 mil pessoas dizem que só vão sair quando a Prefeitura se comprometer a desapropriar os imóveis para construir moradias

Rodrigo Burgarelli, Márcio Pinho, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2010 | 00h00

Cerca de 2,5 mil pessoas ocuparam quatro prédios abandonados no centro de São Paulo, na madrugada de ontem. As ocupações foram organizadas pela Frente de Luta por Moradia (FLM), que promete mantê-las até que os prédios sejam desapropriados para a construção de moradias populares. Policiais bloquearam o acesso de pessoas e mantimentos e houve protestos. Outra ocupação no centro já havia sido realizada na sexta-feira.

Foi a maior ação conjunta em prédios vazios do centro nos últimos anos. Das quatro ocupações de ontem, duas foram em imóveis historicamente reivindicados por movimentos sociais: o Edifício Prestes Maia, na região da Luz, e o prédio do INSS, na Avenida 9 de Julho, ambos alvo de antigas ocupações. Foram invadidos também os edifícios do Hotel Columbia Palace, na Avenida São João, e o do número 799 da Avenida Ipiranga.

Neste, as sacadas dos 15 andares do prédio viraram palco para os ocupantes, que passaram a tarde batendo garrafas e panelas enquanto gritavam frases de protesto. Pedestres pararam para ver a cena e alguns estabelecimentos comerciais fecharam as portas, por causa da aglomeração. As manifestações aumentaram quando policiais bloquearam a entrada até para mantimentos. "Eles não podem fazer isso. Não há violência pior do que privar famílias do direito de beber água e se alimentar", disse o coordenador da FLM, Osmar Borges.

O acesso também foi bloqueado nas outras três ocupações. Segundo o comandante do Policiamento da Capital, coronel Marcos Roberto Chaves, a ideia era impedir que móveis fossem levados para dentro dos edifícios e manifestantes que saíram voltassem para os prédios. "Cercamos os imóveis e aguardamos uma decisão judicial", disse.

Outra ocupação de 70 famílias foi registrada na sexta-feira, no número 959 da Avenida Duque de Caxias. O prédio será desapropriado pelo governo estadual para a construção do Complexo Cultural Luz, mas os proprietários questionam a indenização na Justiça e ainda há famílias morando no local. Até as 20 horas, os cinco prédios continuavam ocupados.

Reivindicação. Os movimentos dizem não estar dispostos a aceitar bolsa-aluguel ou benefícios para saírem. Eles querem que os prédios sejam desapropriados. "São grandes devedores de IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) que contribuem para o déficit habitacional da cidade", disse Tânio Leonardo de Moura, organizador da ocupação no Prestes Maia. A maioria das famílias vinha de cortiços e pensões do centro ou morava com parentes. Esse era o caso da dona de casa Fabiana Aparecida, que paga R$ 300 de aluguel, de uma renda familiar de R$ 600. "Ou pagamos aluguel ou comemos", disse ela, que dormiu no prédio do INSS.

Segundo Borges, as ocupações foram organizadas um dia após as eleições para chamar a atenção do governador eleito, Geraldo Alckmin (PSDB). "Queremos pautar o governo que vai chegar, para que continue intensificando os investimentos em habitação", disse. A ação no dia das eleições também ajudou a despistar a polícia, cujo pessoal estava mobilizado para garantir a segurança do pleito. Borges negou que a FLM tenha qualquer vínculo com partidos.

Reunião. Em nota, a Secretaria Municipal de Habitação afirmou que "não tem poder para arbitrar sobre propriedade particular". A pasta diz que não recebeu "nenhuma pauta de reivindicações" e afirma que nenhum representante do movimento compareceu à reunião marcada para às 13h de ontem, na Central de Habitação, "deixando os representantes da Sehab e CDHU esperando em vão durante uma hora". / COLABORARAM ANA BIZZOTTO e MARCELO GODOY

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