ALEX SILVA/ESTADAO
ALEX SILVA/ESTADAO

Simulador de voo da antiga Vasp vira 'playground' para grupo sem-teto

Prédio da companhia falida há 8 anos na Vila Congonhas foi ocupado por 50 pessoas do Movimento Popular de Luta por Moradia

Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

10 de novembro de 2016 | 04h00

Eles nunca voaram de avião. Mas há 20 dias “ganharam” um simulador de aeronave, em tamanho real, ao invadir um prédio da Vasp - companhia aérea falida há 8 anos - na Vila Congonhas, zona sul de São Paulo. Em outubro, o local foi tomado por 50 pessoas do Movimento Popular de Luta por Moradia (MPLM), grupo criado há 3 anos. Uma faixa com o nome do movimento divide a fachada com a placa enferrujada da Vasp. 

No terreno abandonado há pelo menos 12 anos - segundo moradores do bairro -, o simulador de avião permanece intacto em um dos cinco prédios da área. No local, próximo do Aeroporto de Congonhas, funcionou a escola de treinamento da empresa. 

Empoeirado, com seis poltronas e papéis espalhados pelo chão - entre eles um manual com orientações de emergência datado de 1981 -, o simulador de avião virou playground do grupo. Os invasores se divertem com os documentos e gostam da ideia de ter ao alcance um avião de mentirinha. Além do galpão com o simulador, no centro do terreno, o prédio de entrada mantém ainda um pequeno teatro com cadeiras enfileiradas e poltronas no hall. 

Um morador da região, que pediu para não ser identificado, queixou-se que o grupo quebrou a porta de vidro do prédio e colocou uma corrente com cadeado no portão. “É um perigo. Nosso medo é que invadam outros prédios.”

O pedreiro Fabio Silva, de 35 anos, e a cabeleireira Eidi Carolina de Macedo, de 22, se mudaram para o terreno da falida companhia aérea com o filho John, de 1 ano e 6 meses, alegando problemas financeiros. “Ou estaríamos em um albergue ou estaríamos na rua. Não tínhamos para onde ir. E lutamos para estar na ocupação. É disputado”, diz Silva. 

Líder do MPLM, Ivan Santos, de 29 anos, explica que o grupo adotou como estratégia a invasão de prédios “com menos visibilidade do poder público”, como o da Vasp. “O nosso movimento nasceu na região central, mas quando a gente ocupa algum prédio lá no centro só fica três ou quatro meses e tem de sair. Sempre alguém perde as coisas na reintegração de posse. Então começamos a procurar prédios abandonados em bairros mais afastados”, afirma.

Outros 300 membros do movimento devem se mudar para o antigo prédio da Vasp no próximo dia 15. É a data marcada pela Justiça para a reintegração de posse do terreno do Hospital Maternidade Santa Marta, em Santo Amaro, ocupado há oito meses pelo MPLM. As 110 famílias dizem que sairão pacificamente e começaram a mudança para o terreno em Congonhas. 

Vendido. Em nota, a 1.ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca de São Paulo, responsável pela massa falida da Vasp, diz ter saber da invasão e que o imóvel já foi vendido. O novo dono não foi revelado. 

“O arrematante ainda não recolheu as taxas necessárias à confecção da carta de arrematação. Tão logo isso ocorra, o documento será imediatamente confeccionado pela serventia, para que o arrematante exerça seus direitos na vias ordinárias, não competindo mais ao juízo falimentar deliberar sobre a questão, pois o bem já não mais integra o patrimônio da massa”, diz a 1.ª Vara. A Prefeitura não se manifestou.

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