NELSON ANTOINE/FRAMEPHOTO
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Sem-teto invadem dez imóveis na capital para ‘mandar recado’ a Doria

Ações da Frente de Luta por Moradia e do Movimento de Moradia para Todos envolveram 2 mil pessoas e atingiram, principalmente, propriedades da Prefeitura

Adriana Ferraz e Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

01 Novembro 2016 | 03h00

A Frente de Luta por Moradia (FLM) e o Movimento de Moradia Para Todos (MMPT) invadiram nesta segunda-feira, 31, dez imóveis, entre prédios e terrenos, na região central, além das zonas sul, leste e norte da capital. As associações dizem ter deixado dois locais após intervenção da polícia, o que a Secretaria da Segurança Pública nega. A ação envolveria 2 mil pessoas. Lideranças de movimentos sociais ligados à habitação dizem que a ação foi um “recado” ao prefeito eleito João Doria (PSDB). 

Em ato de campanha, Doria chegou a dizer que não iria tolerar invasão de prédios públicos, mas prometeu estudar caso a caso e defendeu o debate com líderes dos movimentos. O Estado apurou que, dos oito imóveis que permanecem invadidos, metade pertence à Prefeitura. A pauta da ação da FLM envolveu ainda reivindicações por habitação na cidade. “A nossa ocupação é um recado para a nova gestão não deixar de cumprir o que o Haddad começou. (Vamos ficar) até quando pudermos”, afirma Janice Ferreira, de 28 anos, uma das coordenadoras da FLM. Também da Frente, Heloísa Silva, de 30, adiantou que não haverá mais invasões. 

Mas o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, garante que as invasões serão intensificadas no próximo governo. “É evidente que o discurso adotado pelo Doria vai criar mais conflitos. Vai ter protesto e mobilização.” 

No domingo, 30, o coordenador da Central de Movimentos Populares, Raimundo Bomfim, comemorou as invasões. “É um sintoma do desemprego e, consequentemente, da dificuldade de pagar aluguel, além de um aviso ao prefeito eleito Doria, que não terá vida fácil se tentar brigar com os sem-teto.”

Em nota, a equipe de Doria diz que pretende priorizar a regularização fundiária e a urbanização de favelas. “Quanto às metas de construção de habitação popular, serão firmadas após avaliação da capacidade instalada da Prefeitura nesta área, bem como dos recursos disponíveis.” Doria ainda não tem metas de habitação e definirá nos primeiros 90 dias o número de unidades habitacionais, após audiências públicas. 

A fila da habitação está praticamente estagnada. O prefeito Fernando Haddad (PT) prometeu entregar 55 mil unidades habitacionais. De 2013 para cá, 12 mil moradias populares foram entregues – 50%, porém, não foram construídas pela Prefeitura, mas pela iniciativa privada. Segundo a gestão, o déficit habitacional é de 1,4 milhão de unidades. Já quanto às invasões, a Prefeitura diz que “todas as áreas que forem da administração municipal serão objeto de pedido imediato de reintegração de posse”. 

Diálogo. Para o cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV-SP, as invasões desta segunda podem ser uma resposta dos movimentos sociais a duas posições do prefeito eleito João Doria. “A primeira diz respeito às declarações feitas por ele sobre ocupações, de que não vai tolerar. A segunda pode estar relacionada ao convite feito a um nome do mercado para comandar a área”, diz, referindo-se a Claudio Bernardes, ex-presidente do sindicato da habitação – sondado pela equipe do tucano para assumir a pasta de Habitação ou de Desenvolvimento Urbano.

Teixeira ressalta que Haddad também foi pressionado pelos sem-teto. “Mas acredito que a tendência agora é que os ânimos fiquem mais acirrados. Doria precisa dialogar, mostrar qual será sua política habitacional, ainda pouco conhecida. Dizer que vai incentivar as PPPs é pouco. Quantas unidades serão?”, indaga.

Ligado ao PT, grupo já supera o MTST

O coletivo Frente de Luta por Moradia (FLM) é uma das principais organizações de invasões do centro de São Paulo. Ligado ao Partido dos Trabalhadores (PT), foi formado em junho de 2003. Com a ação da madrugada de ontem, sobe para 29 o número de prédios e terrenos sob a coordenação da FLM na capital - o que supera o total de imóveis invadidos pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), por exemplo, com 27 endereços na cidade e região metropolitana. 

Antes da série de invasões, a FLM estava em 21 prédios, 12 no centro. O grupo promove invasões a prédios públicos e privados subutilizados pelos proprietários. Historicamente, prefere regiões movimentadas e com infraestrutura. Desta vez, porém, o coletivo focou também a zona leste, com 4 terrenos ocupados. 

Haddad. No primeiro ano de mandato, o prefeito Fernando Haddad (PT) nomeou para cargo comissionado um coordenador da FLM, Osmar Silva Borges. Ele foi um dos principais líderes das invasões no centro, em fevereiro e outubro de 2012. Borges virou assessor de superintendência na presidência da Cohab. Na época, a administração municipal argumentou que ele foi indicado para o cargo por ter experiência na relação com movimentos sociais. / COLABOROU RICARDO GALHARDO

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