Sem-teto faz 'torneio alternativo' a 4 km do Itaquerão

Ocupação Copa do Povo, organizada pelo MTST, fez torneio com timesdos metroviários, garis, rodoviários e professores

Mônica Reolom, O Estado de S. Paulo

13 de junho de 2014 | 02h05

SÃO PAULO - Enquanto os torcedores começavam a chegar à Arena Corinthians, na manhã de ontem, a cerimônia de abertura para um torneio de futebol alternativo acontecia a 4 quilômetros do estádio em Itaquera, na zona leste de São Paulo. Um boneco de pelúcia do Fuleco, símbolo da Copa do Mundo, foi queimado pelos organizadores da Copa do Povo, assim como figurinhas do álbum com os ídolos internacionais do futebol.

Criado por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), o evento reuniu as cerca de 3 mil famílias da ocupação que existe desde o início de maio em um terreno ao lado do Parque do Carmo. Apesar da "violência" contra o mascote, o encontro se propunha a ser uma alternativa bem-humorada ao evento da Fifa.

Em vez de chuteiras, pés no chão; no lugar de um gramado verde, um piso de laje com traves improvisadas para os gols. "É mais democrática, a nossa Copa. Tem até time das mulheres", disse a autônoma Cláudia Garcez, de 37 anos, moradora da ocupação. E não era só uma equipe feminina, mas seis. Outra meia dúzia de times era formada por crianças. De homens, havia 14 equipes. Eram tantos jogadores esperando que, a cada cinco minutos, alguém perguntava para a coordenação: "Quando é o nosso jogo? Falta muito?"

"A coordenação do movimento organizou o campeonato e decidiu homenagear grupos que se mobilizaram neste ano", explicou o coordenador do MTST Josué Rocha, de 25 anos. "Todos os jogadores são da ocupação, mas temos o time dos metroviários, dos rodoviários, dos garis, dos professores."

Ao longo do torneio, foram surgindo outros times, como o das "Ronaldetes" e das "veadetes", que reunia homens vestidos de mulher, gays, travestis e transexuais. "Nosso preconceito é zero. Estamos juntos para jogar bola e se divertir", disse, de vestido, Daniel Rodrigo de Carvalho, de 32 anos. A equipe da militância também apareceu e até Guilherme Boulos, coordenador nacional do MTST, arriscou-se em campo. Mas ele foi logo substituído.

A quadra, ao mesmo tempo em que era palco de jogos acirrados, também se tornou local de dança e diversão. As crianças corriam de um lado para o outro, soprando cornetas verde-amarelas. Os adultos dançavam hip-hop, funk, sertanejo e pagode que saíam de caixas de som. De cima de um palanque, um locutor anunciava as partidas e, quando o jogo demorava a engrenar, pedia: "Faz um gol para mim, gente".

Protesto. Moradora de Itaquera há mais de cinco anos, a técnica em necropsia Íris dos Santos disse que o protesto do MTST é uma forma de mostrar ao mundo a insatisfação com o Mundial. "A Copa foi tão mal estruturada que a gente ficou sem vontade de gritar 'vai, Brasil'. Não dá para fingir que estou feliz."

Segundo Íris, nos outros anos a agitação nas ruas era maior. "Achei que quando fôssemos trazer uma Copa para cá, ia ser uma animação enorme. Mas está estampada na cara do povo a insatisfação."

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