Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Sem-teto e PM entram em confronto durante reintegração no centro

Polícia cumpria ordem em prédio ocupado na São João; pelo menos 12 pessoas, incluindo 5 PMs, saíram feridos e 9 foram presas

O Estado de S. Paulo

16 Setembro 2014 | 08h14

Atualizado às 23h51

SÃO PAULO - A reintegração de posse em uma ocupação da Avenida São João transformou nesta terça-feira, 16, o centro de São Paulo em campo de batalha. Por mais de 12 horas, protestos promovidos por grupos de moradia e confrontos com a Tropa de Choque da PM foram engrossados por estudantes, usuários de drogas, vândalos e integrantes de organizações diversas. E grupos de moradia prometem mais ações nesta quarta-feira. O serviço reservado da Polícia Militar diz ter identificado também a participação de black blocs nos protestos.

Os confrontos só terminaram no começo da noite. Mesmo assim, populares tentaram depredar um ônibus na frente da Igreja de Santa Ifigênia, às 19h40, e foram contidos por policiais jogando bombas de gás. Por volta das 20 horas, em novo confronto, a PM atirou uma série de bombas a esmo. 

Três homens, incluindo dois moradores de rua, foram feridos por estilhaços. No balanço até 19 horas, pelo menos 12 pessoas, incluindo 5 PMs, saíram feridos dos tumultos que se espalharam do Viaduto do Chá até a Praça da República. Além disso, 9 pessoas foram presas (2 por lesão a PMs, 6 por arrastão e 1 por incendiar ônibus) e 75 acabaram levadas a delegacias por resistência e desobediência. 

Arrastões e saques. O confronto teve início por volta das 7h30, quando a PM cumpriu autorização judicial para retirar cerca de 200 famílias da Ocupação São João, na esquina da Avenida Ipiranga. Alguns sem-teto insatisfeitos com a falta de caminhões para levar pertences começaram a atirar, do alto do prédio de 20 andares, pedras e eletrodomésticos contra policiais. 

O revide da PM com bombas de gás foi imediato. Mais de 30 bombas foram disparadas em menos de cinco minutos de confronto. Mulheres grávidas e com crianças de colo tentavam se proteger na garagem. Dezenas de sem-teto eram colocados nos camburões e encaminhados para três delegacias da região. “Não houve abuso nem truculência. O que houve é que muitos vândalos que não têm nada a ver com a ocupação estão aproveitando para fazer bandalheira”, afirmou o coronel da PM Glauco Silva de Carvalho, responsável pela reintegração.

O prédio da Avenida São João era ocupado por integrantes da Frente de Luta Por Moradia (FLM), entidade que comanda 13 das 60 ocupações que existem hoje no centro. Assim que a PM começou a lançar bombas contra o prédio, outros sem-teto de ocupações da FLM nas Ruas Marconi e 7 de Abril passaram a fazer barricadas de fogo. 

O movimento dos sem-teto conseguiu a adesão de dezenas de adolescentes moradores de rua, usuários de drogas, estudantes secundaristas e skatistas pelo centro. Até integrantes da torcida uniformizada Independente, do São Paulo, que estavam no Largo do Paiçandu, ajudaram a fazer barricadas. “Aqui é todo mundo contra a PM, em qualquer situação. Nós vamos pra cima”, dizia Alexssandro Gastão, de 19 anos, skatista que estava na Galeria do Rock. “Com a polícia é guerra sempre”, emendou.

Destruição. Enquanto a Tropa de Choque ainda se concentrava em minar o foco dos tumultos na ocupação da São João, os grupos de vândalos e de sem-teto continuavam espalhando terror pelo centro. Na área mais movimentada, na frente do Teatro Municipal e a cerca de 600 metros da Prefeitura, manifestantes conseguiram atear fogo em um ônibus biarticulado para 120 passageiros. Com o incêndio, uma fumaça negra se espalhou pela região, às 9h30, e provocou pânico e correria pelas ruas. 

Durante todo o dia, o trânsito ficou bloqueado nas principais vias do centro. À noite, a apresentação da ópera Salome foi cancelada no Municipal.

Uma barricada com pneus e lixeiras incendiados bloqueou por volta das 10 horas a Praça da República. Duas lojas foram saqueadas. Grupos de mulheres que haviam sido dispensadas do trabalho tiveram bolsas e celulares furtados em arrastões. Fachadas de vidros de agências bancárias e restaurantes também foram destruídas.

Os arrastões e atos violentos se concentravam nos calçadões das Ruas Barão de Itapetininga e 7 de Abril. “Estou tentando ir embora, porque aqui dentro da loja começou a entrar fumaça das bombas e quase ficamos sufocadas”, dizia a atendente Lucélia Costa da Silva, de 29 anos. Só por volta das 10h30 os PMs, em carros blindados, começaram a entrar nos calçadões fechados pelas barricadas. Os policiais tentavam conter, com bombas de gás e balas de borracha, grupos de vândalos que arrombavam lojas fechadas na Barão de Itapetininga.

Metrô. A perseguição e os consequentes confrontos entre PM e manifestantes se arrastaram por toda a tarde. Por volta das 13 horas, as Estações República e Anhangabaú do Metrô tiveram de ser fechadas. No fim do dia, por volta das 17h30, ainda era comum ver correrias e disparos de bombas nos arredores do Viaduto do Chá e da Praça da República. A Frente de Luta por Moradia promete fazer nesta quarta-feira novos protestos. / BRUNO RIBEIRO, CAIO DO VALLE, DIEGO ZANCHETTA, FELIPE RESK, MÔNICA REOLOM e RAFAEL ITALINI

 

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