Sem-teto acampados em construtora fecham Marginal do Pinheiros

Grupo dormiu no local e voltou a realizar protesto nesta quinta-feira, 17. Movimento quer evitar reintegração de posse do Portal do Povo

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

17 de julho de 2014 | 12h16

Atualizado às 12h45

SÃO PAULO - Pelo menos 150 militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) passaram a noite desta quarta-feira, 16, em uma área externa que dá acesso ao estacionamento do prédio da construtora Even, na Marginal do Pinheiros, na zona oeste da capital paulista. Parte deles saiu para trabalhar na madrugada - muitos são vendedores ambulantes - e o protesto foi retomado por volta das 10h desta quinta-feira, 17, esvaziado. O movimento quer evitar a reintegração da Ocupação Portal do Povo, que fica em um terreno da empresa, no Morumbi, na zona sul.

Por volta das 12h30, os sem-teto receberam orientação da coordenadora Natália Szermeta para deixar o prédio e bloquear a Marginal do Pinheiros, para fazer uma assembleia. Depois de negociação, a Polícia Militar fechou a Rua Hungria (pista local da Marginal do Pinheiro), sentido Marginal do Tietê, na altura do número 1.400, para que o MTST realize assembleia sobre as negociações com a Even. 

Três barracas da noite anterior permaneceram no local, mas a maioria utilizou papelões para dormir no chão. Durante toda a manhã, os militantes se serviram de pães com manteiga, sucos e refrigerantes trazidos por eles. Um fogão instalado no local foi usado para preparar arroz, feijão e ovos. Os sem-teto compraram pratos e talheres de plástico para se servir.

Embora o portão de entrada da Even tenha ficado aberto durante toda a noite, o acesso ao banheiro, no saguão de entrada, permaneceu bloqueado desde às 20h desta quarta-feira. Com isso, os sem-teto precisaram improvisar um espaço para as necessidades, protegido com sacos de lixo e pedaços de madeira. Eles trouxeram papéis higiênicos e davam "descarga" com uma torneira perto da estrutura montada.

A assessoria de imprensa da Even disse ao Estado que a empresa conta com a ação da polícia para remover os manifestantes. Desde as 10h, novos sem-teto estão impedidos de ultrapassar o portão do térreo e quem sair não pode voltar. A empresa não informa, no entanto,  se já entrou com liminar na Justiça. O grupo do MTST promete continuar o acampamento até estabelecer diálogo com a construtora.

Às 11h30, duas coordenadoras do MTST entraram no prédio com um policial que as chamou "para tomar um café". A Força Tática chegou ao local para bloquear a entrada do estacionamento. Metade da área externa está fechada pelos policiais para haver circulação dos carros de funcionários, que nesta quinta-feira trabalham normalmente. Na quarta-feira, eles tinham sido dispensados no início do protesto, às 13h30.

Ao meio-dia, um pequeno grupo de militantes permanecia ao lado de fora da área da construtora, com cornetas. Eles foram impedidos de entrar, mas vieram ao local para ajudar no protesto.

Os sem-teto se revoltaram com a presença da Força Tática. "Viu só a humilhação que nós, que somos trabalhadores, passamos? De bandido eles não vão atrás", questionou uma das manifestantes. 

No frio. Sem acesso ao prédio, os militantes que passaram a noite na Even disseram que passaram frio, tiveram de urinar no chão, mas o fizeram motivados. "Todo ser humano tem direitos iguais. Só vou sair quando tiver mais oportunidade e não tenha mais família nos córregos da cidade", disse a vendedora ambulante Nátali Ferreira dos Santos, de 24 anos.

Nátali acampou com o marido na área externa do prédio e disse que não passou fome. "Tem café da manhã, almoço, café da tarde e jantar", contou. 

Moradora há um mês no Portal do Povo, mesmo tempo de vida do assentamento dos sem-teto no Morumbi, é a segunda vez que Nátali participa de um ato com o MTST. O primeiro foi em marcha na última semana. "Não recebo nada, a luta é o que a gente ganha", afirmou. 

A vendedora ambulante relatou que decidiu morar em um terreno ocupado por não conseguir bancar o aluguel com os cerca de R$ 50 por dia - "apenas nos que têm movimento" - que ganha com a venda de meias, garrafas de água e guarda-chuvas. "A gente precisa correr todo dia da polícia senão apanha", reclamou a jovem, que trabalha na zona sul. "Eles falam que a gente é tudo vagabundo", disse.

O MTST conta também com o apoio de velhos militantes que, quando há uma nova ocupação, seguem para apoiá-la mesmo não morando no local. É o caso de Preta, que pediu para ser chamada da assim. Ela milita há oito anos pelos sem-teto e diz já ter morado em três grandes ocupações. A mais memorável foi em 2006 na chamada Ocupação Chico Mendes, em Taboão da Serra, região metropolitana de São Paulo.

Preta também esteve mais recentemente na Nova Palestina, na zona sul, e agora milita para o Portal do Povo.

A mulher de 40 anos, no entanto, diz viver de aluguel em uma casa no bairro de Santo Amaro, também na zona sul, com seus sete filhos. O mais novo tem 2 anos e o mais velho, 19.

Preta tem saudades do clima das ocupações. "Viver em ocupação é gostoso. Todo mundo é unido, não tem confusão, é exigido respeito". Ela conta que recebe ligações dos militantes para apoiar quando há novos protestos.

Ambulante de profissão, Preta revela ganhar R$ 30 por dia. Uma das filhas trabalha em uma peixaria. "Mas não me ajuda muito em casa, não", conta, enquanto ri do próprio comentário.

Com o aluguel a R$ 400, Preta faz planos de ir morar com uma amiga, para gastar menos. "Não estou mais conseguindo pagar", lamentou.

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