Sem saída de emergência e sinalização, 90% das vítimas morreram asfixiadas

Fogo se alastrou rapidamente após faíscas prateadas atingirem o teto; em pânico e no escuro, muitas pessoas correram para o banheiro

LUCAS AZEVEDO, ESPECIAL PARA O ESTADO , SANTA MARIA, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2013 | 02h01

Uma única porta, saída não sinalizada, escuridão, fumaça, falta de orientação e pânico aumentaram a tragédia na boate Kiss, no centro de Santa Maria, na madrugada de ontem. Os bloqueios no caminho fizeram com que 90% das 233 vítimas morressem por asfixia enquanto tentavam escapar, segundo bombeiros. Poucos corpos foram queimados, mas muitos estavam cobertos de fuligem.

O desastre aconteceu com a casa cheia. Por volta das 2h30, a banda Gurizada Fandangueira tocava no palco, durante a festa Agromerados. O evento, organizado por alunos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) reunia cerca de 2 mil pessoas, a maioria no primeiro ano de Tecnologia de Alimentos, Agronomia, Medicina Veterinária, Zootecnia, Tecnologia em Agronegócio ou Pedagogia.

Segundo testemunhas, durante o show, a banda usou um tipo de fogo de artifício conhecido como "sputnik" ou "chuva de prata": faíscas prateadas saíram de um pequeno morteiro no palco. Uma fagulha entrou no sistema de exaustão e o fogo atingiu o teto do salão, baixo e feito de papelão e material de proteção acústica. As chamas se espalharam rapidamente. Testemunhas contam que o vocalista da banda, Marcelo de Jesus dos Santos, tentou apagar o incêndio com um extintor, que não funcionou.

Fuga. Em pouco tempo, o público concentrado perto do palco percebeu o fogo e começou a correr. Mas um curto-circuito apagou a luz. No escuro e sem indicações de saída, muitos se perderam no caminho. Alguns foram parar no banheiro.

O Plano de Prevenção de Combate a Incêndio da Kiss estava vencido desde agosto, segundo o comandante-geral do Corpo de Bombeiros gaúcho, coronel Guido Pedroso de Melo. A casa também não tinha saída de emergência: só havia um local de acesso, que funcionava como entrada e saída.

As primeiras pessoas que chegaram a essa única porta acharam outra barreira - os seguranças (veja ao lado). Mesmo após a saída ser aberta, ela não foi suficiente para escoar todo o público. Bombeiros e voluntários tiveram de quebrar as paredes da boate voltadas à Rua dos Andradas para aumentar a passagem.

Resgate. A via estreita e os carros estacionados atrapalharam o resgate. Ao tentarem entrar, bombeiros se depararam com uma barreira de corpos logo na porta - eram as vítimas que tentaram sair. "Soldados tiveram de abrir caminho no meio dos corpos para tentar chegar às pessoas que ainda agonizando", descreveu o comandante-geral Guido Pedroso de Melo. Muitos celulares tocavam ao mesmo tempo - eram parentes e amigos em busca de informações.

Pela mesma porta, bombeiros e voluntários entravam para combater as chamas. Aos poucos, os corpos foram sendo removidos e colocados na calçada. Até o fim da manhã, todas as vítimas já haviam sido levadas ao Centro Desportivo Municipal (CDM). Lá, foram organizadas por agentes do governo estadual e colocados à disposição dos parentes que foram fazer o reconhecimento das vítimas.

À noite, suposto comunicado atribuído à administração da Kiss, publicado numa página da boate no Facebook, comunicava "com pesar" o "acidente". Com erros de português, a nota informou que os administradores estão à disposição e funcionários tinham a "mais alta qualificação técnica".

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