Sem projetos, candidatos dão palpites sobre ciclovias em SP

Utilização de bicicleta como meio de transporte pode ajudar para descongestionar o trânsito da capital

Carolina Spillari, estadao.com.br

26 de julho de 2008 | 18h44

Sem propostas concretas, os candidatos à Prefeitura de São Paulo arriscam palpites sobre as ciclovias. São favoráveis, na maioria, ao uso de bicicleta como meio de transporte. O veículo poderia ser uma saída para descongestionar o trânsito da cidade, se combinado com outros meios como ônibus e Metrô, afirmam quase todos. Mas entre os candidatos não há um plano concreto para que São Paulo receba as ciclovias e ciclofaixas.   Veja também: Radial Leste terá a próxima ciclovia de São Paulo CPTM amplia bicicletários em estações de trens de SP Secretária supera medo e pedala para ir ao trabalho em SP   O atual prefeito e candidato, Gilberto Kassab, promete que sua gestão pretende reservar recursos no orçamento de 2009 para implantar 100 km de ciclovias e ciclofaixas. A novidade é que já está em estudo um Plano Global Cicloviário, afirma Kassab. O veículo é importante, segundo ele, do ponto de vista da saúde pública por combater o aquecimento global e diminuir a poluição do ar. A bicicleta melhora o trânsito, mas o único projeto em andamento, a Radial Leste, ainda está em construção.   A bicicleta vai estar na matriz do transporte, de acordo com o plano de governo do candidato Geraldo Alckmin (PSDB), que ainda está sendo elaborado. Alckmin diz estar de viagem marcada para Bogotá onde irá conhecer o Trasmilênio, um sistema de transporte público que integra a bicicleta com os corredores de ônibus. Na capital colombiana há mais de 300 km de ciclofaixas. Para São Paulo, Geraldo defende um sistema integrado, onde se vá de bicicleta até as estações de trem ou metrô e que lá haja vaga reserva para deixá-la, como já é feito em estações da CPTM.   O uso desse transporte não-motorizado deve ser pensado em articulação com o sistema de transporte público, opina a ex-prefeita e candidata Marta Suplicy (PT). Segundo Marta, as ciclovias devem impactar no trânsito, na qualidade do meio ambiente, e também na qualidade de vida e na saúde de quem a utiliza. Porém, E deve ser potencializado com um investimento maior em bicicletários próximos a estações de metrô e terminais de ônibus.   O também ex-prefeito e candidato Paulo Maluf (PP) diz que nas cidades em que as bicicletas são usadas como meio de transporte como Amsterdam e Paris, em trechos marcados (ciclofaixas) e pistas especiais (as ciclovias) fazem com que os automóveis respeitem os condutores desses veículos. Em São Paulo, conforme o ex-prefeito, os caminhos para bicicletas seriam possíveis em bairros mais planos - nas regiões sul e leste - junto a corredores em todas as avenidas.   Para Soninha Francine (PPS), deveriam ser privilegiados os trajetos curtos de 2 quilômetros próximos ao Metrô e trem, para que as pessoas possam ir de casa até uma estação, e daí sim atravessar a cidade. Segundo Soninha o conhecimento técnico já existe para adequar as condições do tráfego à bicicleta. O que falta "é mandar fazer o sistema cicloviário". Seriam necessários, de acordo com a candidata, mais locais para estacionar a bicicleta.   A utilização da bicicleta como veículo implica em uma escolha a ser feita pela cidade, diz o candidato pelo Psol, Ivan Valente. Segundo ele não existem meios, segurança e condições de locomoção. O uso desse tipo de veículo é possível, conforme o candidato, tanto que a atual prefeitura falou em construir 50 quilômetros e não implantou. O uso da bicicleta no cotidiano acaba deixado de lado, já que "o automóvel foi eleito como prioridade", afirma.   Uma mudança profunda no trânsito. É o que defende o candidato do PCB, Edimilson Costa. A partir de uma reorganização do tráfego, segundo Edimilson, as ciclovias e as motocicletas teriam mais espaço e começariam a ser pensados. O inviabiliza a bicicleta como transporte público hoje é o trânsito caótico. O candidato defende a municipalização do transporte público e a tarifa zero para os passageiros.   Conhecido pelo seu projeto do aerotrem, um sistema suspenso de trens que complemente o sistema viário de ônibus e metrô, Levy Fidélix, do PRTB, diz que as bicicletas devem ser usadas somente para o lazer. Segundo ele, as ciclovias não são adequadas por serem direcionadas a veículos individuais. Segundo ele, São Paulo não tem espaço para um corredor coletivo de bicicleta. A falta de transporte de qualidade faz com que a população apele para o transporte individual. "É preciso dar civilidade à cidade", disse.   O trânsito da cidade não ficaria melhor com as bicicletas afirma a candidata pelo PCO, Anaí Caproni. Apesar de não constarem em seu programa de governo, diz não ser contra. As verdadeiras necessidades da população segundo Anaí seriam atendidas através do investimento no transporte coletivo.   Execução   Nenhuma das secretarias que compõem o Pró-ciclista, da Secretaria do Verde, tem autonomia absoluta para licitar obras, afirma o atual prefeito, Gilberto Kassab. As secretarias precisam atuar de forma conjunta, diz. A ciclovia citada pelo prefeito como realização de sua gestão, a Radial Leste, ainda está sendo construída. Até o momento são quatro quilômetros de faixa especial para bicicletas, quase ininterruptos. Porém o prefeito afirma que serão 12 km entregues ainda este ano. O atual prefeito adianta também que há a elaboração do projeto executivo de 25 km de ciclovia no Butantã, que a Secretaria do Verde e a Subprefeitura estarão licitando nos próximos meses.   Uma coordenadoria especial somente para bicicletas. É o que o candidato Geraldo Alckmin promete. "A Secretaria do Verde terá participação importante, na concepção e elaboração de projetos, mas teremos uma coordenadoria exclusiva para esse trabalho", diz.   Segundo a ex-prefeita Marta Suplicy para que as ciclovias saiam do papel é preciso haver uma firme decisão de governo. Uma vez tomada, deveria passar pela articulação de trabalho de diversas secretarias, como a do Verde, dos Transportes e de Obras. Uma ação do prefeito, uma simples assinatura seria o suficiente para que as ciclovias deixem de constar apenas na lei, diz o também ex-prefeito Paulo Maluf.   A mudança de cultura dentro da Prefeitura e um agente público que zelasse pelos ciclistas. São dois pontos fundamentais para que as ciclovias ganhassem as ruas, no entender da candidata Sônia Francine. As decisões deveriam ser compartilhadas entre os vários órgãos municipais que são relacionados ao transporte, afirma Soninha.   Faltam meios, segurança e condições de locomoção, constata o candidato do Psol, Ivan Valente. O uso desse veículo implica em uma escolha a ser feita por São Paulo. Se as bicicletas fossem prioridade, até mesmo a lateral das marginais poderia ser usada para abrigar as ciclovias, incentiva.   Bicicletários e aluguel   O prefeito Kassab destaca o trabalho da Prefeitura em conjunto com o Metrô, CPTM e SPtrans de instalação de bicicletários nas estações de transporte para integrar o transporte público com o uso da bicicleta. Segundo o candidato 10 bicicletários já foram instalados ou estão em licitação. Em 2007, segundo Kassab foram implantados pela Prefeitura mil paraciclos em instituições públicas como bibliotecas e parques e outros mil serão instalados em 2008.   A maioria dos candidatos concordam com que o aluguel de bicicletas públicas como acontece em cidades européias e norte-americanas seria viável. O atual prefeito acrescenta que "já orientou a Secretaria do Verde que faça entendimentos com o Metrô de São Paulo para criar o programa aqui na cidade". O uso de bicicletas como transporte público não ajudaria o trânsito da cidade no entender dos candidatos Levy Fidélix, do PRTB, e Anaí Caproni, PCO. O candidato do PCB, Edimilson Costa, também não vê a bicicleta como uma saída hoje, somente após uma reorganização no tráfego.

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