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‘Sem pressão, sem mobilização dos movimentos, não sai’, diz Boulos

Segundo coordenador, movimento invade áreas porque ‘essa é a forma de pressionar por uma política habitacional’

Entrevista com

Guilherme Boulos, líder do MTST

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2017 | 05h00

Operando neste modelo de invasão de terrenos e já oferecendo os clientes para as unidades, o MTST não está atropelando a legislação ou então virando também uma "empresa" do mercado imobiliário?

Isso está parecendo mais um interrogatório do Sergio Moro (juiz) do que uma entrevista. Mas vamos lá. Não se trata nem da ideia de cliente e muito menos de associação com o mercado. O MTST considera moradia direito social, exatamente por isso que luta pelo MCMV (Minha Casa Minha Vida) Faixa 1, que é altamente subsidiado, diferente de todo o mercado imobiliário. O movimento ocupa, e isso é a característica do MTST em seus 20 anos - não surgiu agora em São Bernardo do Campo. Ocupa porque essa é a forma de pressionar por uma política habitacional que está seca. Sem pressão, sem mobilização dos movimentos sociais, não sai. Basta ver a história. O que, inclusive, gerou as políticas habitacionais do Brasil. A ocupação é uma forma de pressionar o poder público para fazer o que ele deveria fazer sem ocupação, que é política pública de habitação.

Por que o MTST ocupou agora a área privada da Construtora MZM, já que o terreno esteve desocupado também durante a gestão do PT na cidade? Não seria mais fácil conseguir a área com a ajuda do governo municipal de um partido aliado?

Esse argumento, que tem sido usado, de que o movimento é do PT, que é partidário, é um argumento totalmente falacioso e que ignora os fatos da história do MTST. O movimento fez ocupação recente em Santo André, durante a prefeitura do PT, do Grana (Carlos Alberto Grana). Isso virou um empreendimento, o Novo Pinheirinho. O MTST fez inúmeras ocupações durante a gestão do Haddad (Fernando) em São Paulo. E fez tantos outros enfrentamentos com o governo federal, do PT, durante a luta por política pública de habitação. Você acompanhou isso. Seja no Plano Diretor em São Paulo, seja no período da Copa do Mundo. Isso é argumento leviano e irresponsável de setores do PSDB que querem tapar o sol com a peneira  por não terem uma política habitacional em São Bernardo do Campo. O MTST é autônomo e tem na sua trajetória o foco na luta pela moradia independente de qual partido esteja no governo e a história é recheada de fatos que comprovam isso. A ocupação, neste momento em São Bernardo, tem a ver com organização de demanda. A crise social está se agravando no País e, com isso, mais e mais pessoas têm procurado o MTST  para fazer a luta por moradia. Houve uma procura maior pelo movimento nessa região e isso gerou ocupação, como tem gerado também em outras prefeituras que têm sido geridas pelo PT e é importante que se ressalte isso.

+++ A invasão urbana como prática política

Escute um trecho da entrevista: 


Moradores da área, que são contra a presença do MTST no local, dizem que já em abril viram placa no terreno anunciando o MCMV. Portanto, já destinado para habitação social. O que mudou para que o MTST entrasse no local?

Esse terreno, até onde nós temos conhecimento, estava destinado para um projeto que, aliás, fracassou, de faixa 2 do MCMV. As faixas 2 e 3 são reservadas a setores médios, não a quem mais precisa. Isso, por si só, seria um empreendimento imobiliário para quem tem condições de pagar e mesmo esse empreendimento não prosperou, tanto é que o terreno permaneceu vazio e quando entramos lá não havia placa alguma porque esse projeto da MZM não foi adiante.

O modelo de imóveis para o acampamento Planalto segue o de outros projetos do MTST, como o do bairro João Cândido, do Taboão, por exemplo, com apartamentos de 54 m² e 63 m²?

Nós ainda não iniciamos um projeto arquitetônico, propriamente dito, porque há um litígio. O movimento só vai começar a atuar mais fortemente no projeto quando houver sinalização de que o terreno possa ser conquistado para interesse social pelo programa MCMV Faixa 1, Entidades. Estamos começando alguns estudos, mas não é possível dizer ainda qual é a natureza do projeto. Agora, o MTST tem feito projetos em todo o País. Os nossos projetos se caracterizam por ter qualidade urbanística e tamanho consideravelmente maior do que aqueles feitos pela construtora. Isso tem a ver com o programa de gestão direta, quando os futuros moradores são quem botam o bedelho no projeto, que fazem a gestão, inclusive acompanham a gestão da obras, a qualidade sai melhor do que uma construtora que só quer tirar rentabilidade em cima disso.

Qual o valor necessário de financiamento do MCMV da Caixa para esse projeto de São Bernardo e quantas famílias podem ser atendidas no local?

Nós não temos ainda esse dado. O valor do MCMV é fixo. O MCMV paga hoje, em São Paulo, R$ 95 mil por unidade habitacional. Mas não fizemos um estudo de quantas unidades podem caber lá.

Sobre a audiência de segunda-feira, qual sua expectativa? Qual será a orientação para os acampados em São Bernardo no caso de a Justiça decidir pela reintegração de posse, determinada pelo juiz da 7ª Vara?

Temos a expectativa de que a Justiça considere o fato de que esse terreno estava abandonado, sem cumprir função social por quarenta anos. Portanto, que a construtora não exercia a posse. Considera a gravidade que é determinar um despejo de mais de 7 mil famílias que estão neste momento no terreno sem qualquer solução habitacional. E acho que isso foi considerado na medida do relator, que suspendeu a liminar, e que, portanto, tem a responsabilidade de não apostar no conflito, no enfrentamento, como tem feito o prefeito de São Bernardo do Campo. O movimento vai acompanhar a audiência. Agora, evidentemente, não há nenhuma condição de saída do terreno se não houver algum apontamento para a situação das famílias. Uma saída negociada que permita que as famílias tenham uma perspectiva de conquista da sua moradia. Se a aposta, seja do Judiciário, do governo ou da Prefeitura, for no conflito, no enfrentamento, e determinarem retirada, despejo, sem nenhuma solução, isso, evidentemente, pode gerar uma situação de resistência. E, talvez, cinco anos depois, um novo Pinheirinho no Estado de São Paulo.

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