'Sem os ricos eu não viveria', diz catador

Antonio de Freitas faz parte de realidade nordestina, onde a desigualdade subiu mais

ANGELA LACERDA / RECIFE, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2013 | 02h04

Antonio Barbosa de Freitas, de 60 anos, vive há 8 da venda do lixo que cata nas ruas do Recife. Aguarda fazer 65 para ter direito à aposentadoria. "Cinco anos passam rápido", disse, abrindo o constante sorriso de poucos dentes. Trabalha de segunda a sexta, do amanhecer até a noite, e descansa nos fins de semana. "Barão sempre viaja no sábado, não adianta procurar nos lixos", explica.

Com sete filhos - de três mães diferentes - e sete netos, ele raramente vê a família. "Eles têm vergonha porque sou carroceiro", diz, ao justificar o comportamento dos filhos. "Eu já fui muito errado." Seu xodó é o caçula, Ruan Deivison, de 11 anos, de quem sente muita falta e vê menos do que gostaria desde que se separou da última companheira.

Cada dia de "catação" lhe rende em torno de R$ 40,00. "Mas a gente tem de comer todo dia e não consigo juntar." Antonio mora numa favela no bairro de Peixinhos, no município metropolitano de Olinda, e paga R$ 60,00 pelo aluguel de um barraco de tábua. "Quando chove enche de água, vou ver se mudo para outro, de alvenaria, por R$ 80,00."

Embora ganhe mais de um salário mínimo por mês, não tem garantias trabalhistas e não pode parar.

Freitas faz parte de uma realidade nordestina, onde a desigualdade entre ricos e pobres subiu mais do que no resto do País. Em 2012, a renda real do trabalho dos 1% mais ricos no Nordeste foi 154 vezes superior à dos 10% mais pobres, um salto ante as 130 vezes de 2011. O rendimento médio real dos 10% mais pobres ficou em R$ 107, alta de 1,9%, enquanto para os 1% mais ricos foi de R$ 16.481, avanço de 20,7%.

A história de Antonio daria uma novela ainda sem um final feliz. Ele foi abandonado pelos pais em uma caixa de papelão, ao nascer, no Cais de Santa Rita, no Recife. Foi adotado por um casal que o encontrou. A mãe adotiva morreu há 30 anos, de diabetes. "Ela morreu nos meus braços, se a minha mãe estivesse viva eu não estaria puxando carroça."

O pai, cego, vive com uma irmã de criação. Estudou até o terceiro ano primário. Trabalhou com carteira assinada por um período de dez anos. Depois, sempre se virou com biscates. "Já vendi água mineral, trabalhei em carvoaria, fui caseiro no interior, fui servente de pedreiro", enumera.

Reconhece não ter sido um pai exemplar e, embora esteja na base de uma desigual pirâmide social, não se revolta. "Adoro rico", afirma ele, entre risos. "Sem rico eu não viveria." Conta que é no lixo dos ricos que consegue mais material reciclável para vender. "Pego muita latinha dos 'barões', eles bebem muita cerveja." Com um diferencial: "eles separam, já pego tudo organizado, amarradinho".

Foi também nos lixos dos "barões" do bairro de Casa Forte, na zona norte do Recife, que ele pegou a televisão e a geladeira que tem em seu barraco. "Adoraria ser rico. Botaria uma peça boa (dentadura) na boca, ajeitava a vida de todo mundo que conheço, andaria de carro com motorista, porque não sei dirigir, e construiria um altar para Jesus."

Para tentar realizar o sonho, ele de vez em quando joga na placa que colocou na carroça, que pertence ao dono do lixão a quem vende a mercadoria reciclável: KGN-5763. Devoto de Nossa Senhora da Conceição e de Nossa Senhora do Carmo, não perde as festas anuais em homenagem às santas. "Fico até de madrugada, cato muito lixo."

"Mesmo velho, feio e pobre", ele disse que só não arruma mulher porque não quer ninguém jovem. "Não falta, muitas querem ser sustentadas."

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