Sem lugar para morar, travestis vão parar em ocupações de São Paulo

Muitas acabaram expulsas de casa; resolução de conselho incluiu grupo na fila prioritária do Minha Casa Minha Vida

Diego Zanchetta, O Estado de S. Paulo

31 de outubro de 2014 | 19h36

SÃO PAULO - Eliane da Silva, de 32 anos, assumiu ser lésbica há três e não teve a aceitação da família. Saiu de casa, em Francisco Morato, e perambulou em cômodos alugados até ir parar na ocupação do Cine Marrocos, no centro de São Paulo. Lá, ela ajuda como ascensorista e babá para ficar livre do “condomínio” de R$ 200 mensais.

“Nunca nem tentei entrar no Minha Casa Minha Vida porque sempre achei que era para quem tem filhos”, contou Silva à reportagem do Estado. Nesta sexta-feira, 31, ela completava um ano na ocupação da região central, onde o terceiro andar inteiro é reservado para travestis e homossexuais. “Os programas habitacionais são feitos para a ‘família padrão’, casados e com filhos. Quem é sozinho nunca consegue ser contemplado”, pontua Douglas Gomes, de 36 anos, do Movimento dos Sem Teto do Sacomã (MSTS). 

Uma resolução do Conselho Municipal de Habitação (CMH) definiu que gays em situação de violência, travestis moradoras em albergues e índios também podem ser beneficiados com prioridade nas unidades do Programa Minha Casa Minha Vida construídas em São Paulo. A norma complementar ao projeto do governo federal, publicada hoje no Diário Oficial da Cidade, também permite incluir na fila prioritária do programa moradores em áreas limites de municípios vizinhos da capital paulista e idosos sozinhos com mais de 60 anos.

No Cine Marrocos também mora a travesti amazonense Everton Plum, de 40 anos. Até o fim de 2013, ficava todas as noites no Albergue Arsenal, mantido pela Igreja Católica na Mooca, na zona leste. Ela fugiu de casa aos 11 anos, logo após a família descobrir que era gay. “Eu até tentei entrar no Minha Casa Minha Vida, mas fui informado de que não poderia entrar na fila prioritária”, contou Plum.


A travesti disse ter comprado uma casa para a mãe, que se mudou de Manaus para Itajubá com um novo marido. “Eu mesma nunca tive uma casa própria aqui em São Paulo”, acrescentou. “Morei na Europa por três anos e mandava todo o dinheiro para minha avó. Quando eu voltei, ela tinha gastado todo o dinheiro que iria usar para comprar um apartamento.”

Tenda. Travestis e gays sozinhos também ocupam dezenas de outros cômodos nos 60 prédios ocupados por sem-teto no centro paulistano. Na tenda da Secretaria da Assistência Social na Avenida 9 de Julho, na região central, também é comum ver travestis da região dormindo e entrando para tomar banho.

“Muitas participaram de invasões recentes para tentar conseguir o bolsa-aluguel (de R$ 500 mensais) e arrumar algum lugar para morar. Mas, mesmo quem já recebe essa bolsa faz tempo, não consegue apartamento do Minha Casa Minha Vida”, afirmou Adriana da Silva, de 39 anos, que trabalha na tenda da Prefeitura na Avenida 9 de Julho, no centro, e também participa da diretoria da Associação da Parada Gay de São Paulo. 

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