Epitacio Pessoa/AE
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Sem investimentos, Barra Funda vai ganhar 30 mil moradores em 5 anos

30 prédios com 3 mil unidades são apenas um dos lançamentos previstos na região, que ainda espera obras da Operação Água Branca

Rodrigo Brancatelli, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2010 | 00h00

A Barra Funda, bairro da zona oeste de São Paulo que convive com a ausência de melhorias na infraestrutura, com engarrafamentos, enchentes e falta de áreas verdes, vai ganhar mais 30 mil moradores nos próximos cinco anos, o dobro do que possui hoje, segundo levantamento feito pela reportagem com base nos processos de obras na Prefeitura.

É como se a Barra Funda ganhasse uma população equivalente à de Socorro ou Serra Negra, mesmo sem obras viárias, construção de novas ligações de esgoto ou novos piscinões para dar suporte ao crescimento demográfico - hoje o bairro tem 15 mil habitantes.

O maior empreendimento ficará em um antigo terreno da Telefônica, considerado uma das maiores glebas vazias de São Paulo, de 250 mil metros quadrados, arrematada em 2007 por R$ 135 milhões. Faltam apenas alguns detalhes sobre o loteamento da área para o lançamento do enorme condomínio - serão 30 prédios com 3 mil unidades, além de um parque com aproximadamente 50 mil m². O plano da construtora é erguer um genuíno bairro no terreno, com centro para o comércio de conveniência, ruas e pequenas praças. Outro grande empreendimento ficará em um terreno de 63 mil m² na Avenida Marquês de São Vicente. Serão 27 torres com um total de 2.714 apartamentos, de 45 m², 70 m² e 100 m².

Ainda segundo dados da Prefeitura, outros 12 empreendimentos serão erguidos na região até dezembro de 2015. Para se ter ideia, um terreno que há dez anos valia R$ 50 mil hoje não é vendido por menos de R$ 400 mil. Até o começo do ano que vem, dois lançamentos já levarão quase 2 mil carros a mais para o bairro, o que aumentará o fluxo de veículos em uma das avenidas mais congestionadas da capital, a Francisco Matarazzo. Em horários de pico, chega-se a levar 40 minutos para atravessar os 2,5 quilômetros da via, que liga o Minhocão à Lapa.

Obras. Na década de 1930, técnicos da antiga empresa de urbanização da Prefeitura já traçavam projetos urbanísticos para a Barra Funda, simplesmente porque ninguém queria morar no bairro por causa das enchentes do Rio Tietê. Pesquisando nos arquivos do Estado de 1997 para cá, é possível encontrar ao menos 12 planos que nunca se tornaram realidade - ideias que iam da construção de vários piscinões até a transformação da região na "Puerto Madero" paulistana.

"A Prefeitura fala que vai fazer obras para melhorar o bairro, mas isso é só para trazer mais prédios residenciais, sem que nada seja feito", diz o advogado Edivaldo Godoy, presidente da Associação de Moradores da Barra Funda. "As chuvas estão chegando de novo e nada foi feito para evitar as enchentes, que com certeza ocorrerão, como acontece todo ano. Moro aqui na Barra Funda desde criança, mas atualmente está insuportável. Não dá mais para conversar com a Prefeitura, temos de exigir melhorias, partir para o radicalismo, porque do jeito que está não dá para ficar", queixa-se.

A Prefeitura tem R$ 79,7 milhões para investir exclusivamente em melhorias na região. O volume financeiro é da Operação Urbana Água Branca, que se estende por uma área de 5,4 milhões de m² na Barra Funda, Perdizes e Lapa, e vem das contrapartidas dos 21 empreendimentos comerciais e residenciais que se instalaram no bairro desde 1995. Os recursos seriam aplicados em "melhorias urbanas", mas estão parados.

Os planos criados para a Operação Urbana Água Branca foram todos abandonados - mesmo para o problema das enchentes, o mais emergencial, o governo desistiu do piscinão que seria construído na Avenida Francisco Matarazzo e encomendou um novo estudo, por R$ 4,7 milhões.

Em maio, a Prefeitura afirmou que a operação estava em revisão, para se adequar à legislação federal. Agora, pretende retomar parte dos terrenos onde estão os centros de treinamento do Palmeiras e do São Paulo e desapropriar uma parte do Playcenter.

O sistema viário receberia intervenções para dar fluidez à frota de 27,4 mil carros em 2025 - hoje são 8 mil carros. O problema é o mesmo que dos outros planos já propostos: o projeto ainda precisa de aprovação e não há data definida para isso.

O NOME DO BAIRRO

BARRA FUNDA

ZONA OESTE

Loteado no fim do século 19, o bairro era cortado pelas linhas ferroviárias. Porteiras marcavam os limites. Os rapazes da parte de cima costumavam dizer que a origem do nome estava na Itália, em um local conhecido como Barafonda, que significava muita confusão. Já os de baixo davam como explicação as lagoas que o Rio Tietê formava com a retirada de areia para construções.

PARA LEMBRAR

Megaplano para o bairro foi abandonado

Em 2004, a Secretaria Municipal de Planejamento Urbano (Sempla), a Empresa Municipal de Urbanização (Emurb) e o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) fizeram um concurso para definir um megaprojeto urbanístico para a Barra Funda. Era a primeira vez que a Prefeitura tomava a iniciativa de agir diretamente no planejamento de um bairro da cidade. Houve 127 inscritos - o desenho escolhido imaginava um bairro com prédios baixos, de no máximo seis andares, com calçadas largas e árvores, em uma distribuição similar à das superquadras de Brasília.

Batizado de "Bairro Novo", ele ficava em uma área equivalente à do Vale do Anhangabaú. A ideia foi adiada pela gestão que a propôs, a de Marta Suplicy (PT), esquecida na de José Serra (PSDB) e abandonada pela de Gilberto Kassab (DEM).

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