Evelson de Freitas/AE
Evelson de Freitas/AE

Sem fiscalização, giroflex, sirenes e motores turbinados se espalham por SP

Lojas da Barão de Limeira e da Santa Ifigênia vendem acessórios que podem facilmente transformar um carro em uma arma

ARTHUR GUIMARÃES - ESPECIAL PARA O 'ESTADO',

25 de agosto de 2012 | 20h36

Transformar um carro em arma sobre rodas é fácil no centro de São Paulo. Sem receio da fiscalização, mecânicas e lojas de acessórios oferecem serviços e produtos vetados por lei. São motores turbinados, giroflex, sirenes, películas escurecidas, rodas que extrapolam a carroceria e faróis ofuscantes. Motoristas imprudentes e até criminosos têm recorrido à personalização de carros para praticar atos ilegais - é o tuning do mal.

Equipamentos de iluminação usados pela polícia, sirenes e alto-falantes são adquiridos por cerca de R$ 200 na Rua Santa Ifigênia. Com eles, é possível abrir caminho em congestionamentos, criar sensação de pânico nas ruas e despistar perseguições. “É uma irresponsabilidade. Diante de uma irreal situação de emergência, motoristas mudam o comportamento. Pode haver avanço de semáforo, aumentando o risco de colisões”, diz Mauro Augusto Ribeiro, presidente da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet).

Os motores turbinados, porém, representam a customização mais perigosa. Por cerca de R$ 6 mil, empresas “preparadoras” vendem kits de peças capazes de triplicar a potência. “É uma alteração que nasceu para suprir a vontade de colecionadores, mas, infelizmente, pode virar incentivo ao crime”, alerta o capitão Sérgio Marques, porta-voz da Polícia Militar. Segundo ele, é comum flagrar assaltantes usando carros tunados para fugir em alta velocidade.

Dono de um Gol GTS 1987 com 300 cavalos a mais do que o original, P.R., de 26 anos, gastou R$ 30 mil para turbiná-lo. Dispensou, no entanto, as adaptações necessárias no freio - um risco para ele e os demais motoristas. “É como dirigir uma cadeira elétrica. Acelera tudo, mas nunca sabe se vai parar.” O veículo chega a 240 km/h.

Mais velozes, os veículos viram máquinas poderosas em competições ou em fugas. P.R. é adepto de rachas, que costuma praticar na Avenida Jacu-Pêssego, na zona leste, na Ricardo Jafet, na sul, e na Rodovia Ayrton Senna. “Todo mundo que faz corrida prefere sair guinchado a levar ‘bucha’ (perder a competição)”, explica ele, que se gaba de travar disputas com Camaros e Mustangs. Neste ano, a PM interrompeu 40 rachas no Estado.

Riscos. Mudanças em carros implicam outros perigos. Na Rua Barão de Limeira, rebaixar carroceria custa R$ 100. A solução é cortar as molas, “deixando o carro na altura que quiser”, explicou o atendente de uma oficina. Há alterações menos agressivas em lojas da Avenida Duque de Caxias, como mudar a cor do carro por R$ 3 mil e instalar películas 100% escurecidas por R$ 100. “Em caso de sequestro relâmpago, a vítima pode ficar horas no poder de criminosos, sem que ninguém saiba o que acontece”, alerta o capitão Marques.

No Estado, 5 mil lojas atuam livremente

Das cerca de 12 mil lojas de autopeças no Brasil, 5 mil estão no Estado de São Paulo. Mas boa parte do mercado que movimentou cerca de R$ 8 bilhões em 2011 atua praticamente sem controle. Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), Comando de Policiamento de Trânsito da Capital (CPTran), Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran) e Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) afirmaram não ter responsabilidade de monitorar a venda dos produtos. O mercado é livre.

“Pelo que sei, não há ninguém que faça especificamente esse trabalho de ir a cada loja verificar o que é vendido”, diz Eduardo Bernasconi, presidente da Associação Brasileira de Acessórios Automotivos (Abaa), criada há cerca de um ano e, por enquanto, com apenas 12 filiadas.

Antes da entidade, porém, o limbo era maior. “Nesses anos todos sem organização, muitas pequenas empresas foram criadas sem controle. Nossa proposta é reorganizar o mercado.”

O único órgão que faz inspeções nas ruas é o Instituto de Pesos e Medidas (Ipem). Mas o controle recai sobre produtos, não lojas. “A grande maioria dos itens comercializados não tem certificação técnica. Precisamos de regras para conseguir ir a campo”, diz Valmir Ditomaso, diretor do Departamento de Metrologia e Qualidade do órgão.

Hoje, poucos acessórios estão na mira do Ipem, como engates e cadeira de bebês. Os demais, incluindo rebaixamento e película escura, só deverão ser certificados no futuro. Já o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) informou que trabalha nos projetos de certificação solicitados, mas também não tem atribuição de fiscalizar lojas.

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