Sem eles, muito mais gente teria morrido na Kiss

Histórias de quem já havia escapado da boate em Santa Maria, mas voltou para salvar quem nem conhecia; alguns perderam a vida no resgate

ELDER OGLIARI, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2013 | 02h02

SANTA MARIA - Sem serem convocadas, dezenas de pessoas salvaram vidas durante a tragédia de Santa Maria. A maioria permaneceu no anonimato. Alguns, identificados pela exposição de imagens, rejeitam o tratamento de heróis e chegam a demonstrar tristeza por não terem conseguido fazer mais. Centenas ainda estão mobilizados para amparar famílias em luto ou na angustiante espera pela recuperação de quem permanece internado nos hospitais.

Depois de escapar do incêndio e ver que a irmã Jéssica estava a salvo, o estudante de Educação Física e jogador de rúgbi Vinicius Montardo Rosado, de 26 anos, voltou para dentro da boate e carregou pessoas desmaiadas até a porta. Amigos contaram à família que souberam que o rapaz fez isso 14 vezes e depois não apareceu mais. Foi encontrado entre os mortos e enterrado na segunda-feira. "Não procuramos saber quem ele ajudou, não sabemos se quem ele tirou sobreviveu ou não e não sabemos como surgiu esse número de 14 pessoas", diz o pai, Ogier Vargas Rosado, de 51 anos. "Se tirou um, dois ou 20, ele fez o que tinha de ser feito", afirma, com a expressão de quem sofre ao mesmo tempo em que aprova a atitude do filho. "Não queremos torná-lo um herói entre tantos outros que também ajudaram", adverte, ao mesmo tempo em que qualifica de "gigantes" todos os que participaram das tentativas de resgate.

O militar Leonardo de Lima Machado, 26 anos, que chegou a se inscrever para participar da missão de paz da ONU no Haiti, foi movido por valores pessoais para voltar à boate depois de levar para fora a mulher, Jarlene Spitzmacher Moreira, acredita a sogra Venir Moreira, 50 anos. "Não sabemos quantas pessoas ele tirou, mas nos informaram que foram ao menos três. Acho que ele foi um herói ao salvar minha filha, mas poderia não ter insistido em voltar." Em meio a tanta dor, Venir e o marido, Valdir Moreira, de 57 anos, cultivam a esperança de ver Jarlene chegar em casa nos próximos dias. Ela está internada em um hospital de Santa Maria, mas desde quinta-feira não precisa mais de ajuda de aparelhos para respirar.

Sobrevivente. O estudante de Matemática da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Eduardo Buriol, de 22 anos, diz que conseguiu sair da boate graças a sua força física, típica de quem pratica musculação. Já do lado de fora, passou a carregar pessoas da porta da boate para a calçada do outro lado da rua, onde voluntários já prestavam os primeiros socorros às vítimas. Mesmo assim, não lembra quantas pessoas transportou em seus braços. "Talvez umas dez. Nenhuma eu conhecia."

Na sequência, ao ver que um homem estava tentando quebrar a parede da boate a marretadas, Buriol propôs que a tarefa fosse dividida entre os mais fortes e entrou no rodízio com mais três homens. À medida que o buraco aumentava, mais a fumaça preta mortal saía de dentro da boate. "Não tínhamos como enfiar a cara lá dentro", lembra.

No domingo à tarde, ao saber que os participantes da operação de socorro poderiam ter pneumonia química, ele foi ao hospital e passou a noite em observação. Na segunda-feira, teve alta e não precisou tomar medicamentos. Desde então, tem procurado passar os dias com amigos, muitos dos quais estavam na Kiss. "Fico o maior tempo possível com eles. Se ficar em casa, não tenho como não pensar no assunto." Buriol não se considera um herói e diz que ele e seus amigos agiram por instinto.

Já seu amigo Ezequiel Corte Rea, um personal trainer de 23 anos, admite que ficou com remorso quando se viu fora da boate, depois de ter passado por cima de algumas pessoas caídas, e voltou tantas vezes quantas conseguiu para resgatar mais gente e levar para a calçada ou diretamente para os veículos que faziam o transporte para os hospitais. "Acho que levei umas 30 pessoas", calcula, rejeitando qualquer associação da foto que correu o mundo, na qual aparece carregando uma das vítimas, com ato de heroísmo. "Se for por isso, o episódio tem muitos heróis", completa, citando todos os que correram para o local para oferecer ajuda, que ia de água para feridos, massagens e transporte até, horas depois, apoio no reconhecimento de corpos, tratamento de feridos e amparo às famílias.

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