Tulio Kruse/Estadão
Tulio Kruse/Estadão

Sem clínico geral, AMA na zona norte de SP tem apenas um médico em plena segunda-feira

Estadão visitou unidade do Jardim Joamar, que não tinha clínicos gerais e, da equipe mínima de cinco médicos, só um estava no local; agendamento de consultas gera fila de 150 pessoas

Tulio Kruse, O Estado de S. Paulo

01 Junho 2015 | 17h29

Às 6h da manhã desta segunda-feira, debaixo de garoa e enfrentando temperatura de 15ºC, cerca de 150 pessoas esperavam enfileiradas em frente à Unidade Básica de Saúde do Jardim Joamar, na zona norte de São Paulo. Estavam ali para agendar consultas ou exames para o próximo mês. Cerca de uma hora antes do atendimento ser iniciado, às 7h, os pacientes eram informados que uma das médicas do posto entraria em férias e não haveria quem a substituísse, e imediatamente alguns pacientes abandonavam a fila. Sua viagem foi perdida.

Na Assistência Médica Ambulatorial (AMA) anexa ao prédio, a situação era ainda pior. "Hoje não tem clínico geral", avisava a enfermeira ao abrir a porta do atendimento. Apenas um pediatra atendia aos pacientes. A falta de médicos desrespeita as regras municipais, que obrigam a AMA a ter ao menos três clínicos-gerais e dois pediatras enquanto o serviço estiver aberto, de segunda a sábado. 

As duas unidades fazem parte do único posto de saúde que atende as regiões de Tremembé e Jaçanã, que juntas têm mais de 197 mil habitantes. O posto fica aberto apenas 12 horas por dia e não há médicos especializados. O lugar mais próximo que oferece esse serviço fica a cerca de dez quilômetros de distância, na Vila Guilherme. Para ser atendido após as 19h, é preciso ir até a AMA do Jardim Peri, distante oito quilômetros. Nesta segunda-feira, o Estadão visitou a unidade de saúde para mostrar a situação do atendimento nos bairros da cidade. A reportagem passou seis horas no local. Se você teve um problema parecido, mande seu relato por WhatsApp para os números (11) 9-7069-8639 e (11) 98960-4397.

Na semana passada, a dona de casa Maria Matos, 42, levou a filha de 15 anos com suspeita de dengue para ser atendida na AMA, mas não conseguiu ser atendida pelo mesmo problema. "Me avisaram que não tinha clínico geral e tive que procurar outro médico com urgência", conta Matos. Ela retornou esta segunda-feira com a filha, que ainda não teve a doença confirmada, e conseguiu fazer o exame de sangue agendado.

Anderson de Andrade, 26 anos, não conseguiu o atendimento para a mãe, que tem suspeita de pneumonia, mas não consegue fazer o raio-X necessário para diagnosticar a doença. A AMA tem o equipamento necessário, mas já é a segunda vez que Andrade chega ao local com um exame agendado e se depara com uma equipe médica em desfalque, que não consegue oferecer o serviço. "Não tem ninguém aqui que me atenda, vou ser obrigado a levar minha mãe até uma outra AMA para ver se lá conseguimos fazer esse exame", ele conta. Ex-cobrador de ônibus e atualmente desempregado, ele poderia ter usado o tempo perdido na fila e na viagem até outra unidade para procurar emprego.

Casos que têm urgência de atendimento muitas vezes caem na burocracia do atendimento. Bianca Dias, 22, tem um problema neurológico grave de inchaço na cabeça e, segundo ela, há inclusive risco de trombose cerebral. "Estou na fila de espera já há três meses e tenho três ou quatro crises por dia, tomo remédio controlado e a com receita [que a UBS fornece] não dá para eu ficar três meses sem consulta, eu volto aqui para ela me dar mais remédio", ela conta. 

Após o atendimento, Bianca conseguiu apenas um agendamento para setembro com um clínico geral, que, então, deve a encaminhar para um neurologista. Ou seja, ela pode ficar mais três meses esperando um atendimento que serve apenas como triagem para o médico especializado. O posto de saúde oferece um serviço de assistência social que, em alguns casos, pode agilizar o processo de atendimento. Às 8h30, o assistente social da AMA não estava no local para atendê-la.

Desde as 4h em pé na fila do agendamento para consultas na UBS, debaixo de frio e chuva, a ex-doméstica Maria Silva, 51, diz que está há dez anos esperando uma cirurgia na perna. Ela sofre com uma artrose em cada pé e ainda varizes na coxa esquerda, que já está quase a ponto de virar trombose."Tem dias que ando e dias que não consigo andar. Os remédios que eles me passam custam de R$ 100 a R$ 500 e não acho em postos de saúde, então eu tenho que escolher entre comer e comprar remédio", diz Maria.

Maria tem dificuldade para ler e escrever, e se diz refém dos longos intervalos entre consultas, exames, agendamentos e retornos ao médico. Quando ela consegue agendar uma consulta, geralmente seus exames já estão vencidos e ela precisa remarcá-los. Como depende da disponibilidade do Sistema Único de Saúde (SUS), os prazos são de três a quatro meses. Ela conta que já  chegou a entrar na fila para uma operação convencional das varizes, mas o telefonema para agendar nunca veio, e os exames ficaram desatualizados novamente.

O tempo de espera é um dos maiores problemas na UBS. O agendamento é feito em apenas um dia do mês, gerando as filas com mais de cem pessoas. A dona de casa Beany Santos, 60, tem anemia e foi uma das primeiras a chegar na fila, às 3h25. Três horas depois, foi surpreendida com a notícia de que a médica que deveria atendê-la entraria de férias. "Como eu tenho uma consulta com ela marcada para o dia 2, e ela vai entrar de férias, não sei o que vou fazer", disse Beany.

Para pacientes que têm dificuldade de locomoção, a UBS do Jardim Joamar tem mais um problema. A entrada do posto de saúde está instalada em uma ladeira íngreme, e a comunidade reclama sobre o risco de escorregar no piso da calçada.

Após uma hora e meia, o agendamento de consultas e exames para mais de 160 pessoas foi concluído. A presença da reportagem do Estado no local, aparentemente, alterou a rotina na unidade. Usuários relataram que nunca viram a fila andar tão rápido. "Se você não estivesse aqui, ainda estaríamos na fila", disse à reportagem dona Lurdes, 55, que não quis fornecer seu sobrenome.

Na saída do atendimento, houve também algumas reclamações. Uma gerente de loja, que preferiu não se identificar, disse que a pediatra da AMA não a atendeu bem. Após sua filha de um ano e dois meses ter passado a noite em claro por causa de uma tosse, a médica disse que não havia problema com a criança e só recomendou o uso de soro.

Maria das Graças, 57, é doméstica e chegou às 6h30 na UBS apenas para medir sua pressão. Não conseguiu ser atendida. "Fui embora porque preciso trabalhar, tudo aqui é muito demorado e ficar nessa fila, nervosa, só piora minha pressão."

Resposta. Consultada, a Secretaria Municipal de Saúde confirmou a falta de médicos e disse que a AMA Jardim Joamar é administrada pela Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina. O órgão também disse que monitora e cobra a reposição de profissionais. Em relação à UBS, a secretaria disse que o quadro de profissionais estava completo e afirmou que a médica que entrará em férias será substituída em agosto, e que o atendimento será normal.

Leia a nota da Secretaria Municipal de Saúde na íntegra:

A Coordenadoria Regional de Saúde Norte (CRSN) informa que a AMA Jd. Joamar é administrada pela OSS (Organização Social de Saúde) Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM). Possui quadro médico previsto de três clínicos e dois pediatras diariamente. Hoje, havia um pediatra trabalhando. As equipes de enfermagem fazem o acolhimento dos pacientes. Casos graves que, eventualmente, não podem ser atendidos, são direcionados para outras unidades da região. A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) monitora e cobra a reposição desses profissionais junto às entidades, conforme plano de trabalho definido em contrato.

Na UBS, que é administrada pela OSS Santa Casa, o quadro clínico está completo nesta segunda-feira. Com relação às férias da médica mencionada, previstas para agosto, outro profissional estará em atividade no período e o atendimento terá fluxo normal. A CRSN esclarece que a marcação de consultas na UBS é realizada diariamente.

A SMS informa que a UBS é a porta de entrada para o ingresso dos pacientes na Rede de Atenção Básica para as ações de promoção à saúde e atendimento dos pacientes. O fluxo de atendimento segue o protocolo estabelecido pela SMS, onde os pacientes devem passar, primeiramente, por avaliação na médica clínica, para após, caso haja necessidade, ser encaminhado para um especialista.

Mais informações

A secretaria ressalta que novas medidas estão sendo adotadas pela Prefeitura para repor médicos nas unidades administradas pelas OSS, como a exigência de equipe mínima de profissionais durante todo o período de atendimento e pagamentos e descontos por tipo de serviço, ações que não estão no modelo vigente, adotado desde 2009. A falta de médicos é um problema que afeta todo país.

Mais conteúdo sobre:
blitz estadão saúdesaúde

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.