Sem cinto, cadeira foi desativada há 10 anos

Gerente-geral se diz surpreso com uso do lugar; promotora não descarta interdição

TATIANA FÁVARO / CAMPINAS, O Estado de S.Paulo

02 Março 2012 | 03h07

O Ministério Público de São Paulo em Vinhedo e a direção do Hopi Hari assinaram ontem à tarde um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para manter o parque de diversões fechado por dez dias, com prazo prorrogável por igual período. Perícias serão realizadas nos brinquedos para averiguar se há riscos aos visitantes. A ação ocorre após Gabriella Nichimura, de 14 anos, ter morrido na sexta-feira passada após cair do "elevador" La Tour Eiffel.

Segundo o promotor criminal Rogério Sanches, trata-se de uma ação preventiva. O parque tem funcionado de sexta-feira a domingo nesta temporada. De acordo com depoimentos, fotografias e uma terceira perícia realizada na tarde de anteontem, a menina teria se sentado em uma cadeira do brinquedo que deveria estar inoperante.

A promotora da área do consumidor Ana Beatriz Sampaio Silva Vieira não descartou a possibilidade de interdição do Hopi Hari. Segundo ela, porém, isso só ocorrerá caso o resultado da perícia aponte para insegurança aos visitantes.

"Vamos ouvir outras pessoas e aguardar o laudo da perícia. Se ficar comprovado que o brinquedo (La Tour Eiffel) era inseguro, peço interdição do brinquedo. Se isso se mostrar em relação a outros brinquedos, posso eventualmente pedir a interdição do parque", afirmou.

O Hopi Hari, por meio de nota da Assessoria de Imprensa, afirmou ter interesse na elucidação do caso e o compromisso com a segurança de todos os visitantes do parque.

Novo depoimento. Ontem, o gerente-geral responsável pela manutenção falou novamente à polícia. Segundo o delegado Álvaro Santucci Noventa Júnior, ele teria recebido com surpresa a notícia de que a cadeira inoperante teria sido usada por Gabriella. "Ele disse que ficou surpreso como nós, porque nem sequer sabia que aquela cadeira havia sido usada", contou Noventa Júnior. Na terça-feira, ele havia dito que seria "impossível" ter ocorrido uma falha mecânica do equipamento.

O gerente não quis dar entrevistas. Segundo o promotor Rogério Sanches, ele explicou que a cadeira estava sem uso havia ao menos dez anos. O motivo seria a localização do assento no brinquedo. Se uma pessoa alta, por exemplo, sentasse ali, ela poderia bater as pernas na estrutura metálica existente que da à atração formato semelhante ao da Torre Eiffel. Mas não havia nenhum aviso no assento para que ele não fosse usado.

O elevador tem cinco conjuntos com quatro cadeiras cada. Dois estão desativados por manutenção. A cadeira do setor 3, na qual estava Gabriella, também estava inoperante.

A trava de segurança do assento permanecia abaixada e fechada. Naquela cadeira não existia um cinto usado como segundo dispositivo de segurança. O cinto foi exigência do fabricante suíço em 2003. "Mas, pelo menos desde 2002, a cadeira não funcionava. Acreditando que a cadeira não seria usada, o parque não colocou o cinto naquele assento", disse o promotor.

Agora, polícia, promotoria e defesa querem saber quem liberou a trava da cadeira. Para a polícia e a promotoria, o depoimento do gerente-geral reforçou a tese de falha humana como causa do acidente. "O Hopi Hari não contesta o que foi descoberto (o uso da cadeira inoperante). A investigação agora ganha contornos mais complexos, porque faltou vigilância, uma vez que aquela cadeira jamais deveria ter sido usada", disse Sanches.

Reviravolta. Em depoimento dado ao delegado e aos dois promotores, dois funcionários de operação do brinquedo disseram anteontem que sabiam da inoperância do assento. O operador Vitor Igor Espinucci de Oliveira, de 24 anos, disse ter checado as travas de todas as cadeiras 15 minutos antes do brinquedo começar a funcionar.

Ao perceber que a trava da cadeira usada por Gabriella estava solta, teria avisado um superior. O advogado Bichir Ale Bichir Júnior, representante dos dois funcionários, informou que Vitor não recebeu resposta do superior. Vitor e Marcos Antônio Tomás Leal, de 18 anos, que também compareceu à delegacia, disseram que a responsabilidade de checar cada setor de cadeiras ficou para outros operadores.

Mais imagens. Em novas fotografias divulgadas pela família ontem, dois funcionários do parque estão próximos ao conjunto de cadeiras onde estão os Nichimuras. A mãe da menina, Silmara, disse que ouviu de um funcionário que não havia problema no fato de a cadeira de Gabriella não ter o cinto.

Outros três operadores que estavam no brinquedo naquele dia serão ouvidos pela polícia. "Em uma investigação de alto padrão levantamos antes todas as informações e deixamos para o final os suspeitos", afirmou Sanches. A defesa do parque disse desconhecer a imagem.

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