Epitacio Pessoa/Estadão
Polícia de Alambari conta com apenas um veículo; cidade tem 5,5 mil habitantes Epitacio Pessoa/Estadão

Sem carros novos há 2 anos, policiais de SP têm de fazer patrulhamento a pé

Desgaste veicular e atraso na renovação estão afetando trabalho principalmente em cidades do interior, como Campinas. Houve 51 compras em 2015 e 2016 para as Polícias Civil e Militar, e governo do Estado promete ampliar frota

Marcelo Godoy José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

11 de junho de 2017 | 05h00

O governo de São Paulo comprou apenas 51 carros para as Polícias Civil e Militar do Estado nos últimos dois anos. Segundo policiais, o desgaste da frota e o atraso na renovação – todo ano uma parcela dela deve ser renovada – estão afetando o trabalho, principalmente em cidades do interior, como Campinas. Por lá, a redução da frota obrigou os policiais a ampliar o policiamento a pé. Em Tatuí, as rondas passaram a ser feitas em conjunto com a Guarda.

Dados obtidos pelo Estado, por meio da Lei de Acesso à Informação, mostram que na atual gestão de Geraldo Alckmin (PSDB) as compras de viaturas despencaram. No triênio 2012-2014, a PM paulista havia recebido 4.943 carros (média anual de 1.647) e 1.817 motos novas (média de 605 por ano). A partir de 2015, e até maio deste ano, o total de carros comprados foi de 1.231 e o de motos, 1.043. A situação é ainda pior na Polícia Civil, que no triênio 2012-2014 comprou 2.239 viaturas – dessas, 708 foram entregues em 2015 – e não adquiriu nenhuma nova depois. Juntas, as duas polícias têm 24 mil carros.

O governo informou, por meio da Secretaria da Segurança Pública, que pretende investir R$ 75 milhões neste ano para a compra de 150 carros a um custo de R$ 12 milhões para a Polícia Civil e 828 veículos para a PM, um investimento de R$ 63 milhões (mais informações ao lado). “Tenho recebido muitos pedidos de prefeitos e vereadores do interior de reposição de viatura. Em Cesário Lange e outras cidades da região, as viaturas são de 2009 e 2010. Considerando que uma viatura roda 24 horas, não preciso dizer o estado”, diz o deputado estadual coronel Telhada (PSDB), da Comissão de Segurança da Assembleia Legislativa.

Desgaste. Com vida útil média de cinco anos, os carros de patrulhamento têm alto grau de desgaste. Prova disso é o fato de só a PM registrar 700 acidentes com viaturas por mês. Ela é ainda obrigada a enviar a oficinas cerca de 2 mil veículos – mais de um décimo da frota de 14,9 mil – para consertos mensais. “Tem aumentado em muito o gasto de manutenção. Não seria melhor ter um carro zero? A PM ainda procura manter um nível de manutenção. A situação está ruim, principalmente no interior”, diz Telhada.

Em alguns casos, segundo o deputado delegado Olim (PP), presidente da Comissão de Segurança Pública, policiais têm de tirar do bolso o dinheiro para consertar viaturas. No caso da Polícia Civil, o problema maior ainda é a falta de pessoal – de 2012 a 2016, o total de policiais civis diminuiu 9,2%. “Viatura até tem, mas não tem gente para trabalhar. Hoje o Garra (Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos) está trabalhando com três, quatro viaturas com dois policiais (por turno). É uma vergonha”, afirma Olim.

De acordo com ele, a Polícia Civil nos últimos anos recebeu “viaturas Hilux, caríssimas”. “São maravilhosas, mas quero ver quando começarem a quebrar. A arrecadação do governo caiu em maio, e o policial ganha R$ 3 mil por mês. Como vai fazer para pagar o conserto de um farol dessas viaturas caras se quebrar? Vai ter de consertar as Blazers antigas para rodar. Falta planejamento. Um dos helicópteros da Polícia Civil é de 1983. Vai ganhar placa preta, de colecionador”, diz Olim. A presidente do sindicato dos Delegados da Polícia Civil, Raquel Kobashi Gallinati, reforça a crítica. “As revisões são as feitas só no prazo de garantia do automóvel. Depois, o reparo é feito pelo policial e pago do seu bolso.”

Guardas. Para contornar o déficit de viaturas, em muitas cidades a PM programa ações conjuntas com as guardas municipais. Em Tatuí, a integração foi objeto de reunião entre os comandos das duas forças no início do ano. Essas operações são realizadas até nos fins de semana. Sem previsão de reforço na frota estadual, a prefeitura abriu licitação para a locação de nove viaturas para a GCM.

A falta de carros afeta o policiamento também nas pequenas cidades. Em Pereiras, com 7,4 mil habitantes, no dia 24 a PM dispunha de apenas uma viatura para rodar – um veículo com mais de dez anos. O outro, mais novo, tinha baixado à oficina para reparo de um eixo. Em Alambari, de 5,5 mil habitantes, a PM também tem apenas uma viatura. Os moradores contam que, em abril, durante assalto a uma lotérica, os dois assaltantes fugiram porque a viatura estava em um bairro distante.

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Gestão Alckmin diz que retomará aquisições de viaturas

Parte dos recursos para a compra – R$ 38 milhões – sairá do Tesouro e parte – R$ 37 milhões –, do Fundo de Incentivo à Segurança Pública

Marcelo Godoy e José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

11 de junho de 2017 | 05h00

A Secretaria da Segurança Pública informou que a renovação da frota será retomada neste ano com a compra de 150 viaturas para a Polícia Civil e 828 para a PM. Mesmo assim, a média de compras ficará abaixo da registrada nos anos de 2012 a 2014.

Parte dos recursos para a compra – R$ 38 milhões – sairá do Tesouro e parte – R$ 37 milhões –, do Fundo de Incentivo à Segurança Pública. Desde 2011, segundo a secretaria, o Estado investiu R$ 522 milhões na compra de carros, motos e outros veículos para as polícias.

Ainda de acordo com a pasta, a vida útil de uma viatura depende da forma como ela é empregada. Os veículos das Forças Táticas têm vida útil de três anos e os de patrulhamento normal, de cinco anos. As bases comunitárias duram oito anos. Já os carros da Polícia Civil teriam uma vida útil, segundo a secretaria, de até 15 anos.

Em sua nota, o governo alega que a Polícia Civil recebeu 1.401 viaturas e a Militar, 2.719 veículos nos últimos dois anos. O número da secretaria, porém, agrega as compras de todos os tipos de carros, motos e veículos especiais. Ainda segundo o governo, Bauru, Campinas, Tatuí, Alambari, São José do Rio Preto e as demais cidades citadas na reportagem receberam viaturas novas em 2015 e 2016. Não foi especificado, porém, quantas nem se eram carros ou motos.

Excedente. De acordo com a secretaria, existiria ainda um excedente de 24 viaturas no comando de Rio Preto, o que também seria o caso de Tatuí. Ourinhos e Itararé contariam com o número estipulado de viaturas. Por fim, a pasta informou que não se manifestaria “sobre o patrulhamento a pé em Campinas e sobre a alta quilometragem da frota”. / M.G. e J.M.T.

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Sem opções, polícia altera procedimentos

Agentes fazem rondas a pé em cerca de 30 bairros de Campinas, no interior de São Paulo

Marcelo Godoy e José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

11 de junho de 2017 | 05h00

Desde o fim de fevereiro, policiais militares fazem rondas a pé em cerca de 30 bairros de Campinas, no interior de São Paulo. O patrulhamento sem viaturas foi adotado nas áreas do 35.º Batalhão, responsável pela região do Guanabara e Bonfim, e do 47.º BPM, que atende o distrito de Ouro Verde. Embora a Polícia Militar defenda essa modalidade de policiamento, por proporcionar maior interação com a comunidade, o motivo real da estratégia é a falta de viaturas, segundo o vereador Nelson Santini Neto (PSD). “O comandante é cobrado para reduzir os índices (de criminalidade), mas não tem carro, então ele põe a patrulha a pé.”

De acordo com o vereador, que atuou 15 anos em policiamento urbano, pelo menos 60% da frota da PM na região metropolitana de Campinas, que inclui outros 19 municípios e tem 3,1 milhões de moradores, está com mais de cinco anos de uso. E há casos de viaturas que voltam a apresentar avaria dois dias após sair da manutenção. “São veículos que já rodaram 300 mil ou 400 mil quilômetros e deveriam ter sido trocados.”

Segundo ele, o assunto foi tratado com a Secretaria da Segurança Pública do Estado, mas o encontro acabou sem perspectiva de solução. “As oficinas contratadas para fazer manutenção não dão conta do trabalho, mas vemos que o problema é causado pelo tempo de uso das viaturas. Com tantos veículos quebrados, o comandante tem de se desdobrar com a frota reduzida. Em um turno com 20 policiais, ele tem duas viaturas, aí precisa fazer mágica.” Em verificação feita no início de abril, ele apurou que ao menos 70 viaturas estavam quebradas.

Precariedade. Outras regiões do Estado enfrentam o mesmo problema. Em Bauru, após uma sequência de roubos a estabelecimentos comerciais e pedestres, no fim de abril, o comandante da PM na região, tenente-coronel Flávio Jun Kitazume, admitiu que há falta de efetivo e viaturas. Sem especificar números, disse que o déficit é de aproximadamente 10%. Em Ourinhos, a reportagem apurou que o déficit de viaturas é agravado pela idade dos veículos.

Em São José do Rio Preto, a PM adotou a Operação Visibilidade, que mantém viaturas estacionadas em pontos estratégicos, em um momento em que dez veículos usados em patrulhamento estavam em oficinas. Um oficial que pediu para não ser identificado confirmou que a frota, além de insuficiente, está sucateada.

A Associação em Defesa da PM dos Oficiais Militares do Estado de São Paulo defendeu a operação como forma de policiamento ostensivo, mas reconheceu o problema da falta de viaturas, “assunto que suporta outra longa discussão e nem sempre está ao alcance do (oficial) administrativo na ponta da linha”. Em Itararé, questionado por vereadores sobre o aumento na criminalidade, o comando da PM informou que aguarda a destinação de mais viaturas pelo governo estadual. / J.M.T.

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Análise: Renovação ideal é de um quinto da frota todo ano

'Por causa da exigência do emprego, carros de patrulha se desgastam rapidamente, o que exige substituição regular'

Carlos Alberto de Camargo*, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2017 | 05h00

O primeiro governo Mário Covas (1995-1999) foi muito difícil em termos de aquisições, pois sua prioridade foi recuperar a economia. A partir do segundo mandato e de sua continuação, no governo Alckmin (2002-2003), tornou-se possível um planejamento de aquisições. Antes do governo Covas, tivemos compras descontinuadas: os Opalas do radiopatrulhamento padrão do governo Quércia (1987-1991), por exemplo. Mas nada que pudesse parecer uma política de longo prazo.

Carros de patrulha devem estar sempre em muito bom estado operacional. Mas esses carros, por causa da exigência do emprego, se desgastam rapidamente, o que exige substituição regular. Adquirir grande quantidade em uma única licitação, além do custo orçamentário, significa que terão de ser, na época oportuna, substituídos de uma só vez.

Uma programação de substituição da ordem de 20% parece ser a ideal, porque teremos sempre muitos carros novos e poucos carros mais velhos aguardando a vez de serem trocados. Além disso, a troca da frota segundo uma programação permite previsão orçamentária adequada, distribuição dos empenhos ao longo de todo o período do orçamento e o descarte de carros enquanto ainda têm valor econômico (podem ser alienados em leilões como material rodante e não como mera sucata). A atividade policial é crítica, ou seja, deve estar isenta de problemas que levem a falhas na atuação. Por isso, devem merecer atenção as condições do armamento e do carro de patrulha.

* EX-COMANDANTE-GERAL DA PM

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