Sem Canecão, Rio ganha novos espaços para show

Casa top na Lagoa é voltada para público que pode pagar até R$ 800 por ingresso; Casarão no Catete foca em música instrumental

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2012 | 03h06

"Um tom acima". O slogan indica o perfil classe A da Miranda, a nova e aguardada casa de shows do Rio: salão sem aperto, cadeiras confortáveis, comida de chef, som e acústica de primeira e uma visão frontal da Lagoa Rodrigo de Freitas. A capacidade é para 250 pessoas sentadas, gente que pode pagar ingresso de R$ 200 (a meia-entrada no bar) a R$ 800 (colado ao palco).

Os chamarizes são artistas órfãos do Canecão, o principal palco da MPB por 43 anos: Gal Costa - chamada para inaugurá-la, ontem -, Adriana Calcanhotto, Edu Lobo. O Canecão definha há quase 30 meses, fechado desde que foi devolvido à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), dona do terreno. O Rio já havia perdido o Mistura Fina, referência em jazz e bossa nova, e o Cinemathèque.

"Miranda é para um público que não quer ir à Lapa ver show em pé até as 3 da manhã. Estamos no coração da zona sul, onde moram os artistas", diz a dona, Ariane Carvalho, que investiu R$ 5 milhões na estrutura sob o antigo estádio de remo da Lagoa. Ela procura patrocínio.

"Fechou muita coisa porque o aluguel ficou caro demais. O Rio é o único lugar do mundo em que as luvas podem chegar a R$ 2 milhões, como vi no Leblon", diz a diretora Maitê Quartucci, egressa do Vivo Rio, ao lado do Museu de Arte Moderna e herdeiro do público do Canecão.

O show de Gal é o mais caro - o melhor setor chega a custar R$ 896, se a compra for pela internet. Os valores caem à metade com o cartão fidelidade, acessível no site www.mirandabrasil.com.br, e nos casos previstos pela lei da meia-entrada. Os outros dias da semana terão atrações variadas, de comédia stand-up a feijoada com samba. Objetos de Carmen Miranda, de quem se usa o sobrenome, serão expostos na entrada da casa.

Assim como a Miranda, outros novos empreendimentos cariocas seguem a linha centro cultural. Em um casarão centenário de três andares no Catete, reconstruído pelo economista Carlos Lessa (ex-presidente do BNDES), foi aberto há duas semanas o Ameno Resedá.

O foco é a música instrumental brasileira, mas não só isso. Há espaço para nomes como João Donato e Elza Soares e para os jovens que fazem a carreira nos bares da região boêmia da Lapa. Cabem 180 pessoas sentadas ou 250 em pé, em noites de baile.

"A casa tem qualidade à altura da música produzida na cidade. Eu estou acostumado a tocar em lugar sem camarim, com som ruim", diz Rodrigo Lessa, diretor, filho do proprietário e músico do grupo residente Nó em Pingo D'Água.

'Resgate' do Canecão. A UFRJ estuda proposta do ex-dono, Mário Priolli, de venda de mobiliário e ar-condicionado por R$ 4 milhões. "Queremos reabrir neste ano, com atividades acadêmicas na semana e shows de sexta a domingo, mas os colegiados ainda vão se pronunciar", diz Helcio Carlos Gomes, diretor de gestão patrimonial da universidade.

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