André Lessa/AE
André Lessa/AE

Sem caminhões, trânsito em SP melhora, mas ar fica mais poluído

Dias secos e aumento de carros em circulação, apesar da queda nos índices de congestionamento, explicam menor dispersão de poluentes

Eduardo Reina, Renato Machado, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2010 | 00h00

A inauguração do Trecho Sul do Rodoanel e da nova Marginal do Tietê levaram à redução nos congestionamentos na capital paulista nos seis primeiros meses de operação - 11% na média dos horários de pico entre abril e setembro. Mas essas melhorias não se refletiram na qualidade do ar: nas oito estações de medição da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) na cidade houve aumento na concentração de poluentes.

Um levantamento do Estado com base nos relatórios diários da Cetesb de abril a setembro mostra que a quantidade de medições consideradas boas pela companhia (são várias diariamente) passou de 1.533 para 911 na comparação com o mesmo período de 2009 - redução de 40,5%. O índice reflete a quantidade de partículas suspensas no ar, principalmente as que saem dos escapamentos dos veículos. A escala de medição é dividida em cinco: boa, regular, inadequada, má e péssima. Os registros apontam maior variação de boa para regular, mas há também pontos inadequados.

Uma das explicações para a piora na qualidade do ar é o período seco pelo qual a cidade passou neste ano, o maior em décadas. Foram registrados apenas 401,9 milímetros de chuva entre abril e o início de outubro - 37,2% a menos que no mesmo período do ano passado.

O tempo seco prejudica a dispersão dos poluentes. "Mas só isso não explica o aumento na concentração de poluentes", diz Simone Miraglia, do curso de Engenharia Química da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista em poluição. Para ela, a saída dos caminhões das vias da cidade por conta do Rodoanel foi compensada pelo aumento na quantidade de carros. Ou seja, houve uma redistribuição na circulação.

Mudança. O aumento na quantidade de automóveis se comprova nas vias que foram mais beneficiadas com a saída dos caminhões: a Marginal do Pinheiros e a Avenida dos Bandeirantes. Com o Rodoanel, elas foram vetadas a veículos de carga durante o dia. Dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) mostram que, após a abertura do Trecho Sul do anel viário, o volume de automóveis na Pinheiros aumentou 7% (de 41 mil para 44 mil por dia) e 16% na Avenida dos Bandeirantes (de 18 mil para 21 mil por dia).

"Talvez estivesse pior se não houvesse o Rodoanel. Mas a raiz do problema são os carros, cuja frota continua aumentando. As emissões industriais estão mais controladas, mas é preciso fazer algo para diminuir o impacto dos automóveis", diz Simone.

Em setembro, a frota na cidade tinha 6.912.466 veículos, segundo o Departamento Estadual de Trânsito (Detran). No mesmo mês de 2009, eram 6.645.321, uma diferença de 267.145. Excluídos os que já deixaram de circular ou estão sucateados, a estimativa da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) é de que sejam entre 4,5 milhões e 5 milhões de carros circulando pela cidade. Desse total, 23,9% têm mais de 20 anos e são responsáveis por 67,1% dos poluentes que estão na atmosfera da cidade. Outros 9,9% dos veículos têm entre 15 e 20 anos e emitem 13,1% dos gases que sujam o ar. A poluição gerada por um carro com mais de 15 anos de uso é 28 vezes maior que o de um novo, com menos de 6 mil quilômetros, segundo a Anfavea.

ESCALA

Boa

Não há riscos à saúde

Regular

Pessoas de grupos sensíveis (crianças, idosos e com doenças respiratórias e cardíacas) podem apresentar sintomas como tosse e cansaço

Inadequada

Toda a população da cidade pode apresentar sintomas como tosse, cansaço e ardor nos olhos, nariz e garganta. Os efeitos são mais sérios nas pessoas de grupos sensíveis

Agravamento dos sintomas acima em toda a população, além de falta de ar e respiração ofegante. Os riscos são maiores para crianças, idosos e portadores de doenças respiratórias e cardíacas

Péssima

Sérios riscos de manifestações de doenças respiratórias e cardiovasculares em toda a população. Aumento de mortes prematuras nos grupos sensíveis

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