Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

Sem avisar, Acre envia haitianos a SP e número de mulheres surpreende

Missão da Paz, na região do Glicério, recebeu em apenas um dia o triplo de imigrantes que chegam diariamente ao centro de acolhida

Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

19 Maio 2015 | 10h46

Atualizado às 12h50

SÃO PAULO - O principal ponto de apoio de haitianos em São Paulo, a Missão Paz, na região do Glicério, centro, recebeu em apenas um dia o triplo de imigrantes que costumam vir do Acre. Entre as noites de domingo, 17, e desta segunda-feira, 18, chegaram três ônibus e cem novos haitianos. Do total, são 20 mulheres, número que chamou a atenção do padre Paolo Parise, diretor da entidade. A probabilidade é que sejam familiares de haitianos já instalados na cidade.

Reportagem do jornal Folha de S.Paulo desta terça-feira, 19, revelou que o governo do Acre voltou a enviar haitianos para São Paulo sem comunicar os governos locais. 

"Ontem (segunda-feira) à noite chegaram de uma vez 20 mulheres. Normalmente chegam duas ou três mulheres por dia. Achamos estranha essa concentração maior. Pode ser que estejam vindo se juntar com seus maridos", disse Parise.

Nesta segunda-feira, dois ônibus chegaram à capital. Desde janeiro, somente um fretado vinha para São Paulo por dia. De acordo com Parise, na noite passada, 130 haitianos dormiram no chão do salão de acolhimento da Missão Paz, maior número desde o pico de maio do ano passado, quando o número chegou a 200. 

Parise afirmou ter sido pego de surpresa no domingo, durante a Festa Bandeira, tradicional festejo haitiano. Uma pesquisadora vinda do Acre comentou que novos ônibus chegariam. "Fomos pegos de surpresa. Ninguém informou nada. Essa pesquisadora nos informou domingo à tarde, e domingo à noite já estavam chegando", disse. Nesta segunda-feira, uma equipe de voluntários foi mobilizada para preparar comida aos que chegaram. 

O diretor da Missão Paz conversou com o secretário municipal de Direitos Humanos, Eduardo Suplicy, a quem pediu ajuda. "Suplicy começou a ligar para o Ministério da Justiça, que repassou a verba para o Acre fretar novos ônibus. Falou que ia entrar em contato com o (prefeito Fernando) Haddad. Pelo menos falou que vai tentar ajudar. Mas a situação realmente é de emergência."

Segundo Parise, desde março o Acre interrompeu o traslado de imigrantes por dívida de R$ 3 milhões com empresas de transporte. O Estado procurou o governo do Acre para comentar o caso, mas ainda não obteve resposta.

Em março deste ano, o Estado revelou que a Missão Paz operava com o dobro da capacidade máxima. Com as 110 vagas da Casa do Migrante ocupadas, a instituição estava com excesso de 140 pessoas, totalizando 240 - um aumento de 118%. Na época, chegava à capital um ônibus por dia com 30 imigrantes vindos do Acre.

Sem notificação. A Prefeitura de São Paulo, por meio de nota da Secretaria dos Direitos Humanos e Cidadania, disse que foi surpreendida com a informação de que cerca de mil haitianos chegarão à capital nos próximos dias.

"Sem notificação e prazo para planejamento e mobilização, nem por parte do governo do Acre nem por parte do governo federal, nossa cidade terá dificuldades para receber em sua rede assistencial essa quantidade de pessoas", afirmou a gestão Haddad.

A secretaria informou que, sem articulação, não consegue receber com "tratamento digno" os imigrantes haitianos e criticou os governos federal e do Acre, ambos governados pelo PT.

"Estamos há mais de um ano buscando formas de cooperar com os governos federal e do Acre para lidar com este desafio no curto, médio e longo prazo. Se os entes federados agissem de forma articulada e colaborativa, os resultados seriam muito mais eficazes no sentido de oferecer dignidade na acolhida desse contingente de pessoas", afirmou.

Já o prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) disse na manhã desta terça-feira que faltou comunicação do governo federal e do governo do Acre com a Prefeitura. Haddad afirmou que, até então, os protocolos entre os governos eram respeitados.

"Nós não fomos informados com a devida antecedência. Vamos tentar nos preparar para fazer o melhor possível. Mas é difícil receber de última hora sem pelo menos 15 ou 20 dias de antecedência para nos prepararmos", disse o prefeito. 

Haddad declarou ter solicitado nesta segunda-feira que o secretário adjunto de Direitos Humanos, Rogério Sottili, telefonasse para Brasília e para o Acre pedindo que a Prefeitura fosse avisada com antecedência sobre o envio dos haitianos.

"Pedi para o Sottili ligar para restabelecer a comunicação, que vinha bem. Nesse caso, faltou (comunicação)", disse.

O prefeito reforçou que os imigrantes são bem-vindos à cidade. "As pessoas são livres para ir e vir. Não tem passaporte interno no Brasil. São Paulo recebe muitos imigrantes", disse. "Mas quando é um contingente maior, um planejamento prévio ajuda."

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