Sélia retoma casa após 3 anos

Ela fugiu do marido violento e caiu na burocracia da Justiça. Com ajuda da Defensoria, virou o jogo

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

15 Dezembro 2010 | 00h00

A Justiça achou que tudo estava resolvido quando a estoquista Sélia Constantino de Lima, de 43 anos, finalmente deixou a casa onde viveu por mais de dez anos com um marido violento. A juíza entendeu que, com a distância, o problema da violência estava solucionado - e extinguiu a ação. Acontece que a casa era de Sélia. Só agora, após três anos, ela conseguiu que reconhecessem isso.

Antes de precisar sair às escondidas, Sélia procurou a Defensoria Pública, em 2007, munida de sua coleção de boletins de ocorrência, para pleitear a saída do marido. "Aguentei mais do poderia. Já voltava do trabalho com medo. Ele desligava o disjuntor, ficávamos sem luz. Enquanto eu tomava banho, abria a porta do banheiro por fora, para me agredir. Minha filha pequena tinha de entrar para apartar."

Ao sair, Sélia teve de assumir o aluguel de uma nova casa e o sustento dos filhos Tracy e Thomas, então com 12 e 9 anos. "Fiquei tão decepcionada que procurei esquecer o assunto."

A defensora Alessandra Pereira de Melo pediu reconsideração do processo e deixou claro que Sélia não saiu de casa por vontade própria. Em 2009, uma segunda juíza reiterou o parecer da primeira, e o processo foi encaminhado ao Tribunal de Justiça.

Desde o início, Sélia pelejou para acompanhar os trâmites do Judiciário. Assoberbada de trabalho, frequentemente não tinha o dinheiro da passagem para ir a audiências, ou não era achada no novo endereço. "Andei demais, esperei muito, não foi fácil."

Em agosto, recebeu carta "urgente" do TJ. "Estava em um trabalho temporário, não tive como faltar. E, depois de tanto tempo, não esperava notícia boa." Mandaram uma segunda carta. Ela foi. A audiência ficou para 19 de outubro. Chamaram o ex-companheiro, que não apareceu.

No começo de novembro, Sélia soube da sentença favorável e chorou diante do desembargador. No sábado seguinte, foi com o oficial de Justiça ao Jardim Eliana, extremo da zona sul de São Paulo, "despejar" o marido. Chegou no caminhão do filho mais velho, Tiago, de 25 anos, de um relacionamento anterior.

O oficial de Justiça achou que o caminhão era para a mudança. Chamou-a em um canto e disse que, por enquanto, ela não poderia levar nada. "Expliquei que era só o meio de transporte", diz, rindo.

Naquela tarde, Sélia chorou mais ainda. Primeiro, porque não esperava que aquele momento chegaria. Segundo, ao constatar que a casa estava praticamente inabitável. E ainda teve de ouvir do ex-marido: "Viu o que você fez?"

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.