Seis pessoas mortas em ataque no Jaçanã

Cinco viviam na rua e uma fumava cigarro perto de casa; desde domingo, já são 11 execuções na mesma área da zona norte de SP

Bruno Paes Manso, Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2010 | 00h00

Seis pessoas ? cinco delas moradores de rua ? morreram e uma ficou gravemente ferida em chacina ocorrida na madrugada de ontem no Jaçanã, zona norte de São Paulo. Testemunhas contam que quatro homens em duas motos passaram atirando, por volta da 0h10. Dezesseis tiros, disparados de pistolas calibre 9 mm e 380, acertaram as vítimas.

O caso reflete dois problemas crescentes na cidade: o aumento do número de pessoas vivendo nas ruas e o crescimento do tráfico de crack. Aliada a isso, está a ineficiência das políticas públicas para enfrentar os dois desafios (veja ao lado).

Ontem, cinco dos mortos e o ferido estavam sob um viaduto no km 86 da Rodovia Fernão Dias, num ponto de encontro de dependentes da droga ? no local, a perícia encontrou cachimbos para crack e pinos com pó branco semelhante a cocaína. A sexta vítima, Manoel Nascimento Cerqueira Júnior, foi morta na frente de um Cingapura, a 600 metros do viaduto. "Ele estava apenas fumando um cigarro", lamentou uma cunhada, que não quis identificar-se.

A área da chacina está situada no limite entre os municípios de São Paulo e Guarulhos. De um lado do viaduto fica a Vila Galvão, no município vizinho. Do outro, o Jaçanã, região da zona norte de São Paulo circundada por 31 favelas. Moradores dizem que há três bocas de tráfico vizinhas ao local da chacina.

Eles contaram ainda que o consumo de crack sob o viaduto aumentou depois que foram interrompidas as obras de um posto de gasolina. A construção tornou-se um ponto de encontro dos viciados das redondezas.

A presença do grupo causava medo entre os moradores do lugar. Uma senhora que vive perto do local do massacre e não quis identificar-se, disse que os roubos eram frequentes, tanto de motoristas quanto de pedestres. À noite, falta iluminação. O proprietário de uma padaria da área, que também pediu anonimato, disse que PMs estavam sempre nos arredores tentando, inutilmente, dispersar os frequentadores. "Assim como ocorre em toda a cidade, o crack hoje provoca nossos maiores problemas", diz o delegado Petrantonio Minuchillo, do 73.º DP, que atua na região.

Investigação. Há três hipóteses para os motivos do crime. Todas apontam para uma vingança. Testemunhas contaram à polícia que no domingo os moradores de rua ajudaram a empurrar o carro de uma mulher que quebrou debaixo do viaduto. Um deles furtou a bolsa da mulher. Horas depois, ela voltou com alguns homens, que, além de espancarem dois dos sem-teto, teriam ameaçado o grupo.

Outra testemunha contou que traficantes de droga e policiais estavam incomodados com os furtos cometidos na região pelos usuários de crack. Além disso, no mesmo bairro, um PM foi morto em uma emboscada no domingo ? o Jaçanã registrou cinco assassinatos desde domingo, além da chacina, a segunda ocorrida em menos de 48 horas na Grande São Paulo.

Na de ontem, além de Cerqueira Júnior, a polícia identificou Adriano de Jesus. Após os tiros, ele chegou a correr e pedir ajuda no posto de gasolina ao lado, mas também acabou morrendo.

Drama. A única sobrevivente, M.H., de 25 anos, levou um tiro na cabeça e está sob proteção do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa em um hospital da capital. Ela tem quatro filhos. Há três anos, a jovem começou a ter problemas com crack e foi deixada pelo marido. Morava com a mãe, que cria os netos, e ficava dias sem voltar para casa. Retornava só para tomar banho e comer.

Outra vítima, Leandro Jesus de Oliveira, de 26 anos, foi reconhecido pela mãe, Sueli Jesus Costa. Ela disse que o filho estava preso por furto, em regime semiaberto. Foi liberado no feriado de Páscoa para uma saída temporária, mas não voltou mais. Morador da zona sul, vivia na zona norte por causa do crack.

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