Seios de aluguel

No Largo do Paiçandu, uma escultura de Júlio Guerra celebra a Mãe Preta que, por séculos, deu de seu próprio peito o leite de seus filhos para fartar a boca de sinhazinhas e sinhozinhos brancos. Naqueles tempos da escravidão, as sinhás casavam cedo, mal entradas na puberdade, gerando larga prole antes mesmo de chegarem aos 30 anos de idade. Careciam da mãe preta recém-parida, resgatada da senzala para os confortos temporários da casa-grande, para poupar-lhes os seios delicados. Na roça, essas mães de leite criavam fortes vínculos afetivos com seus amamentados, que duravam a vida inteira. E persistiriam após o fim da escravidão no parentesco de filhos de leite e seus negros irmãos de leite.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

30 Julho 2012 | 03h03

As amas de leite não eram apenas as escravas ou as negras de seios fartos. Em 1876, ainda na escravidão, em anúncio de jornal, alguém oferecia para alugar uma ama de leite, branca, de 16 anos. Ah, o cativeiro oculto de quem não era negro! Com a imigração, estrangeiras também entraram no mercado de amamentação. Havia quem preferisse nutrizes brancas e não negras. Mas havia, também, as mães que preferiam negras e mulatas. Tanto as mães que procuravam amas de leite quanto as amas de leite que se ofereciam indicavam detalhes decisivos no emprego: mãe de primeiro parto era um deles. "Boa e abundante de leite" era outro. "Deseja-se que o leite seja novo", dizia um anúncio de 1876. Em 1878, num sobrado da Rua do Senador Feijó, precisava-se de uma ama de leite "com urgência, sadia, de abundante leite, liberta ou cativa, para casa de tratamento", isto é, de gente fina.

Numa época de alta mortalidade infantil, entre o fim do século 19 e a primeira década do século 20, eram frequentes os anúncios de mulheres sem filhos que se ofereciam como amas de leite. Muitas vezes, mães que procuravam essas amas exigiam as que fossem mães sem filhos. O que era uma tragédia pessoal e social se tornava um bem mercantil de bom preço. Pela época do fim da escravidão, quando deixa de existir a ama de leite criada em casa, surge a condição de que a candidata a nutriz se submetesse previamente a exame médico. No lugar da amamentadora cativa e residente, difunde-se a amamentadora de aluguel, geralmente desconhecida.

Aí por 1876, sob o disfarce de um reclame de ama de leite anuncia-se o início do fim dessa profissão, um complemento industrializado para o leite materno escasso: a Farinha Láctea Nestlé, vendida na loja de instrumentos musicais e partituras de H. Luiz Levy, na Rua da Imperatriz, hoje Rua 15 de Novembro. "A escassez de amas sadias e boas, o seu preço elevado, tem tornado a introdução da farinha láctea Nestlé um verdadeiro benefício para o Brasil", dizia o anúncio. Até por volta de 1910, porém, as amas de leite ainda resistiriam à concorrência do leite industrial.

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