Seguranças do centro usam porretes para afastar quem sai da cracolândia

Reportagem flagra cenas de usuários de drogas sendo arrastados e agredidos; moradores defendem trabalho dos vigias de rua

ARTUR RODRIGUES , WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2012 | 03h05

Seguranças e comerciantes de Santa Ifigênia, na região central da cidade, estão usando porretes para afugentar usuários de crack das calçadas do bairro. A reportagem também presenciou nesta semana cenas de dependentes de drogas sendo arrastados e agredidos.

Na manhã de ontem, o vigilante Edson Amarante, de 25 anos, caminhava pela calçada portando um porrete de quase um metro de comprimento. Quando usuários de crack começavam a se acumular em algum ponto da Rua Guaianases, ele se aproximava com o objeto e espantava o grupo. "Olha a calçada, olha a calçada", dizia. Com medo, os viciados se dispersavam.

O rapaz afirma que até agora nunca precisou usar o pedaço de madeira contra ninguém. "Eles são uns zumbis, precisam ser internados logo, mesmo que contra vontade", disse. "O governo precisa agir logo, não ficar só espantando os viciados de um lado para o outro."

Amarante conta ter sido contratado por comerciantes da região de Santa Ifigênia, que o transferiram da Rua General Osório, onde trabalhava. "Hoje é meu primeiro dia aqui. Vim porque a situação está feia", disse.

O dono de uma lanchonete na mesma rua pega todos os dias um pedaço de pau e sai para ameaçar os viciados que se acumulam junto à sua porta. Quando eles não atendem a ordem, o homem bate em quem estiver na frente. Questionado pela reportagem do Estado sobre a prática, ele não quis se pronunciar.

A reportagem também flagrou dependentes de drogas desacordados sendo puxados pela camisa pelos seguranças. Em um dos casos, um usuário de crack idoso foi arrastado por 30 metros até uma quadra fora da responsabilidade do vigia.

Moradores. Apesar da violência, o trabalho dos seguranças é elogiado por quem mora e trabalha na área. Os comerciantes pagam de R$ 50 a R$ 200 pelo serviço. Massaro Honda, de 51 anos, 40 deles como comerciante na Rua Guaianases, diz que a presença dos vigilantes é fundamental não só para o comércio, como também para quem circula na região. "É uma garantia a mais que damos para os clientes. Se tirarem eles daqui, farão muita falta", afirma.

O porteiro José Severino Duda, também de 51, diz que a presença dos seguranças é relevante, principalmente no período noturno e no fim da madrugada, quando várias mulheres precisam sair de casa para ir ao trabalho. "O guarda resolve quando são dez ou 12 viciados. Agora, quando são 200 de uma vez, aí não tem jeito. O próprio vigilante fica com medo de entrar na multidão", afirmou.

"Moro há dez anos no Brasil e acredito nessa situação. Eles deveriam instalar cabines 24 horas da Polícia Militar em todas as quadras da região central. Isso seria mais eficiente do que pagar esses guardinhas na rua", diz o peruano Marco Antônio Vera, de 35 anos, dono de um restaurante na região central.

Ilegal. A polícia alerta que usar porretes contra dependentes de drogas é proibido. De acordo com o capitão Carlos Sanches, do setor de Comunicação da Polícia Militar, portar porretes com o intuito de ameaçar ou espancar alguém não é legal. No entanto, segundo ele, a corporação ainda não se deparou com esse tipo de situação até o momento na área do centro.

A Defensoria Pública, porém, criticou a ação dos vigilantes.

"A lei não autoriza particulares fazerem justiça com as próprias mãos. Provavelmente, pode ser um efeito da imitação do trabalho policial, que muitas vezes também extravasa o limite legal", afirmou a coordenadora do Núcleo de Direitos Humanos da Defensoria, Daniela Skromov, que desde o início da operação tem acompanhado os usuários de crack na região da cracolândia.

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