José Patrício/AE
José Patrício/AE

Secretário sugere pôr nome do pai de Kassab em rua e revolta moradores

Iniciativa de Rubens Chammas provocou abaixo-assinado contrário na Vila Mariana; procurado, prefeito desautorizou a proposta

Caio do Valle,

30 de dezembro de 2012 | 22h29

No apagar das luzes da gestão Gilberto Kassab (PSD), uma proposta polêmica vem irritando um grupo de moradores da Vila Mariana, na zona sul da capital. Uma iniciativa encampada pelo secretário municipal de Planejamento, Orçamento e Gestão, Rubens Chammas, prevê renomear uma das ruas do bairro, a Mairinque, para Pedro Kassab, pai do prefeito, morto em 2009.

 

A iniciativa foi apresentada pelo dirigente a moradores de um dos dois únicos prédios residenciais da via, o Maison Pasteur, no início deste mês. O edifício fica na frente do tradicional Colégio Liceu Pasteur, onde o médico dermatologista Pedro Salomão José Kassab trabalhou por mais de 50 anos como diretor-geral.

 

Chammas levou ao condomínio um documento com o intuito de coletar assinaturas de eventuais interessados na homenagem. Até a semana passada, o papel ainda era mantido à disposição dos condôminos na portaria.

 

Apesar de a administração do prédio ter soltado um comunicado interno sobre a presença do abaixo-assinado, somente uma pessoa havia aderido à causa até quinta-feira. O prédio, de 18 pavimentos, tem quatro apartamentos por andar, exceto na cobertura, onde existem dois.

 

Para que a proposta de mudança vire um projeto de lei na Câmara Municipal, ao menos dois terços dos moradores da rua inteira precisam avalizá-la, tornando-se signatários do documento. Como a Rua Mairinque é pequena – tem cerca de 300 metros –, e conta com relativamente poucas residências, o peso proporcional do Maison Pasteur é grande. O outro prédio da via não foi visitado por Chammas.

 

O secretário, que foi colega do prefeito Kassab em seus tempos de estudante no Liceu Pasteur, alega que vereadores já haviam sugerido a alteração. “Mas o prefeito rechaçou, porque achou que não era o momento.”

 

Mas ele já havia decidido procurar o maior edifício residencial da Rua Mairinque para propor a troca. “É um processo relativamente lento. Você precisa mostrar para os moradores o que é, qual é a importância.” Chammas diz que foi lá porque tem conhecidos no prédio.

 

Descontentamento. Grande parte dos condôminos rechaçou a iniciativa. Para eles, a mudança traria transtornos. “E as correspondências? O Correio vai se embananar”, reclama o bancário aposentado Claudimir Antoniolli, de 67 anos. “Um secretário não deveria se preocupar com isso. Se querem homenagear, usem uma rua ainda sem nome.”

 

Em sua defesa, Chammas afirma que não foi ao prédio se apresentando como representante do governo municipal. “É claro que os moradores sabem o cargo que ocupo, mas fui só como conhecido de moradores do prédio e conhecedor do Liceu Pasteur.”

 

Junto de outros moradores, Antoniolli elaborou um abaixo-assinado contrário. Ele diz que o documento, com 12 signatários, foi protocolado na sexta-feira na Subprefeitura de Vila Mariana. “Não temos tantas assinaturas pela época, muita gente está viajando. Mas queríamos dar entrada antes do fim da gestão.” O governo Kassab termina hoje.

 

Política. O médico Paulo Takayama Junior, de 48 anos, assinou o documento com a mulher. Para ele, a mudança de nome seria “de fundo objetivamente eleitoreiro”. “Além disso, o Pedro Kassab foi um dos diretores do colégio. E os outros? Não tentaram mudar o nome da rua por eles.”

 

O morador lembra que a atual denominação homenageia uma figura histórica. Segundo o Dicionário de Ruas da Secretaria Municipal da Cultura, a via foi batizada em memória do conselheiro Francisco de Paula Mayrink, morto em 1907, que presidiu a Estrada de Ferro Sorocabana.

 

A própria forma de escrever o nome da rua já mudou após revisões ortográficas do português. É o que lembra outro condômino, o bancário Frederico Faccioli, de 33 anos. “Querem alterar novamente?” Ele diz que achou estranho a iniciativa ter vindo no fim do mandato de Kassab.

 

Procurado, o prefeito informou, por sua Assessoria de Imprensa, que, quando tomou conhecimento da proposta, desautorizou-a, argumentando que a sugestão de mudança não cairia bem se ocorresse na sua gestão.

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