Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Seca leva prejuízo para comerciantes da região de Paraibuna

Dono de pesqueiro perdeu clientes e viu movimento diminuir depois que nível começou a baixar; donos de embarcações temem troncos

RAFAEL ITALIANI, O Estado de S.Paulo

23 Novembro 2014 | 02h02

SÃO PAULO - Com capacidade total de 2,1 trilhões de litros de água, quase duas vezes maior do que o Sistema Cantareira, a Represa Paraibuna vive uma das maiores estiagens da história. Nesta sexta-feira, 21, o manancial estava com 74 bilhões de litros de água do volume útil (sem contar os 162 bilhões de litros do volume morto), segundo relatório da Agência Nacional de Águas (ANA).

Na cidade de Paraibuna, comerciantes perdem cada vez mais clientes. Benedito Marcos Farias Soares, de 60 anos, dono de um pesqueiro, diz que o movimento caiu 40%. "Antes, as crianças brincavam no balanço molhando o pé na água. Agora, a represa desceu mais de 20 metros e chegou a uma parte que eu nunca tinha visto", afirmou, apontando para as árvores que apareceram.

"As pessoas pescavam, passeavam de barco e jet ski. Agora, com esse monte de tronco aparecendo, elas ficam com medo." O pesqueiro do comerciante era dividido pela água da Represa Paraibuna. Para chegar do lado oposto de onde fica o restaurante era necessário usar um barco. Hoje, o caminho é feito sem molhar os pés.

O mesmo prejuízo por falta de movimento vive uma marina da região. Conforme a água foi baixando, os clientes retiraram os barcos. Na terça-feira, um empresário de São Paulo teve de recolher sua lancha.

"Aqui é muito bonito, vou sentir falta da represa, mas a água está cada vez mais baixa. Corre o risco de eu bater em alguma árvore e causar um acidente", disse Sebastião de Oliveira, de 59 anos. A embarcação foi levada para Itanhaém, no litoral.

"Já tirei o jet ski depois que ele quebrou três vezes por causa das árvores que enroscaram. Não dá mais para ficar aqui. Infelizmente, está insustentável", afirmou o empresário.

Manancial também divide água com hidrelétricas. Não é só a severa estiagem que prejudica o nível dos reservatórios. A geração de energia com a água da Represa Paraibuna e com o restante da Bacia do Rio Paraíba do Sul deixa a crise hídrica ainda mais problemática na região do Vale do Paraíba, no interior paulista.

De acordo com Malu Ribeiro, coordenadora da Rede Água da SOS Mata Atlântica e especialista em recursos hídricos, a seca da Paraibuna também é responsabilidade do setor hidroelétrico. “O setor sempre mandou na questão da água. Existem reservatórios grandes, mas que não são de usos múltiplos, como é o caso da Represa Paraibuna. A única saída para resolver isso são planos estratégicos de bacias hidrográficas”, afirma.

Segundo ela, a falta de opções para gerar energia é um problema nacional, o que deixa o País dependente das águas dos reservatórios que poderiam ser economizadas nas secas. 

Sobre o estudo do governo do Estado de criar um volume morto de 162 bilhões de litros de água para atender o Rio, ela concorda com o uso da reserva em estiagens, desde que o governo tenha planos de como usar o recurso.

“Está se correndo atrás de todas as águas que restam. O que a sociedade civil quer é que haja um plano maior que detalhe os próximos passos sobre o uso do volume morto e as medidas que serão tomadas para encher novamente os reservatórios”, afirma.

Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), cerca de 11 milhões de pessoas dependem da água da Bacia do Rio Paraíba do Sul. A bacia atende cidades do Vale do Paraíba, mas a maior parte dos consumidores está no Estado do Rio.

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