Seca faz a Califórnia subir

Imagine um navio cargueiro no oceano. Quando ele está carregado, grande parte de seu casco está submerso. Mas, se você retirar parte da carga, ele sobe, e uma parte do casco vai aparecer acima da linha d’água. O inverso ocorre quando você aumenta a carga, o navio afunda um pouco. A crosta da Terra pode ser imaginada como um enorme cargueiro flutuando sobre um mar de lava quente. Se o peso da crosta aumenta, ela afunda um pouco, se o peso diminui, ela flutua um pouco mais. 

Fernando Reinach, O Estado de S. Paulo

29 Novembro 2014 | 03h00

O que os cientistas descobriram é que a Califórnia ficou mais leve desde 2013, quando começou a grande seca por lá. Tal como um lutador de MMA que fica horas na sauna para perder água e reduzir sua massa antes da pesagem, a Califórnia desidratou e ficou mais leve. E subiu um pouco.

Admito, isso parece história para boi dormir, mas o fato é que os cientistas conseguiram medir essa ligeira subida da Califórnia e, a partir dessa medida, calcular quanto de água o Estado emagreceu nos últimos anos. Para acreditar nesse resultado é necessário entender como foram feitas as medidas, afinal, não é possível colocar a Califórnia em uma balança.

Para estudar os terremotos na Costa Oeste dos Estados Unidos, os cientistas montaram um sofisticado sistema de monitoramento na região. Parte desse sistema consiste em centenas de estações de georreferenciamento espalhadas pela Califórnia e nos Estados vizinhos. Em cada um desses locais, os cientistas fixam em grandes blocos de rocha aparelhos capazes de captar os sinais de GPS (Global Position System). São equipamentos semelhantes a telefones celulares que têm GPS, só que mais sofisticados. Da mesma forma que nosso telefone celular usa os sinais dos satélites do sistema de GPS para nos informar onde estamos, esses equipamentos sofisticados informam os cientistas, a cada momento, onde os equipamentos estão. Mas, como cada um desses equipamentos está firmemente preso a uma montanha, se parte deles muda de lugar isso significa que a montanha inteira mudou de lugar, e é exatamente isso que acontece durante um terremoto.

Durante os longos períodos entre os tremores de terra, cada uma dessas estações continua a enviar para os computadores que controlam os dados de suas posições. Foram esses dados que os cientistas resolveram analisar com cuidado. Dados de 771 dessas estações de GPS foram analisados. Mas, em vez de verificar os dados de longitude e latitude (estes dados indicam se a montanha se deslocou para a direita ou para a esquerda), eles examinaram os dados enviados pela estação sobre sua posição em relação ao nível do mar (ou seja, se a montanha tinha se deslocado para cima ou para baixo). E, para surpresa dos cientistas, eles observaram que toda a área do Oeste dos Estados Unidos sobe ou desce ao longo do tempo. Entre 2003 e 2005, a região afundou 5 milímetros, depois passou 8 anos estável. Mas, no início de 2013, quando se iniciou a grande seca, a região como um todo começou a subir, e não somente já recuperou os 5 milímetros perdidos, mas em alguns lugares chegou a subir 15 milímetros.

O interessante é que já se sabia que o acúmulo de neve no inverno e seu derretimento no verão fazem com que algumas montanhas se elevem ou abaixem frações de milímetro todos os anos. Com base nessa informação, os cientistas deduziram que essa elevação de 5 milímetros em toda a região provavelmente se deve à perda de água. Em outras palavras, os cientistas acreditam que esse enorme navio chamado Califórnia, que boia em um oceano de lava, vem desidratando e perdendo peso ao longo dos anos e aos poucos vem subindo.

Mas, da mesma maneira que é possível calcular o peso que retiramos de um navio sabendo quanto ele subiu após ser descarregado, os cientistas puderam calcular quanto de água os rios, os lagos, os aquíferos, o solo e o subsolo da Califórnia perderam de água desde que começou a seca. Feitas as contas, os cientistas calcularem que essa região perdeu 240 gigatoneladas de água, quantidade suficiente para cobrir toda a região com 10 centímetros de água. Ou, se você preferir, o equivalente a toda a água que as geleiras da Groenlândia perdem a cada ano por causa do aquecimento global. Isso dá uma ideia de quanto tem de chover na região para reverter esse processo. É muita água.

Essa descoberta não somente vai permitir o monitoramento da quantidade total de água disponível ao longo do tempo em vastas regiões continentais, mas promete ajudar a monitorarmos as mudanças climáticas.

Hoje, é impossível saber se essa perda de água faz parte de um ciclo natural ou já é consequência das mudanças climáticas, mas o simples fato de sermos capazes de estimar essas grandes mudanças talvez ajude pessoas que não acreditam que o clima da terra está mudando a mudarem de opinião.

É BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: ONGOING DROUGHT-INDUCED UPLIFT IN THE WESTERN UNITED STATES. SCIENCE VOL. 345 PAG. 1587 2014

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