Sean liga para avó brasileira na noite de Natal

Após 6 meses sem notícia, conversa foi rápida e garoto falou pouco; há um ano, ele vive nos EUA

Talita Figueiredo, O Estado de S.Paulo

29 Dezembro 2010 | 00h00

Depois de exatos 12 meses da entrega do neto Sean para o pai americano David Goldman, a chef de cozinha Silvana Bianchi recebeu um presente de Natal na noite do último dia 24: um telefonema do menino de 10 anos, com quem não falava havia seis meses. "A ligação me pegou de surpresa e foi muito bom ter falado com ele. Contei da nossa batalha de um ano para poder visitá-lo, disse que não nos esquecemos dele em nenhum minuto do dia e que nossa luta tem sido grande", afirmou a chef.

O menino, no entanto, pouco contou nos cinco minutos de duração da ligação, de acordo com a avó. Além da dificuldade de se expressar em português, Silvana afirma ter notado um misto de emoção e falta de espontaneidade no garoto. Para ela, Sean foi o tempo todo monitorado e proibido de perguntar ou falar o que queria. "Ele não entrou em detalhes sobre a vida dele, só falou que estava de férias por dez dias, que estava bem e saindo para jantar. Sabe como é, um menino de 10 anos já não é muito de conversa. Ele escutou apenas, não perguntou sobre nós nem sobre a irmã", afirmou Silvana.

A chef de cozinha disse a ele que a irmã Chiara, de 2 anos, está sempre dizendo "cadê o irmão?" quando vê as fotos dele espalhadas pela casa de Silvana, mas a menina estava na casa da avó paterna na noite do Natal e por isso não falou com Sean. A menina mora com a avó, em um condomínio vizinho à Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul do Rio. "Perguntei também o que ele queria de Natal, que ele pensasse e me dissesse, na próxima vez que pudesse me telefonar."

Silvana aguarda resposta da corte de Nova Jersey, onde mora Goldman, sobre pedido de visita ao menino. "O Sean tem de ter o direito de conviver com a família brasileira", argumenta.

Briga jurídica. Sean foi levado para os Estados Unidos para ser criado pelo pai, o americano David Goldman, um ano e meio depois da morte de sua mãe brasileira, a estilista carioca Bruna Bianchi, que morreu aos 34 anos, horas depois de dar à luz Chiara.

Bruna e Goldman casaram-se nos Estados Unidos em 2000. Quando Sean tinha 4 anos, ela veio passar férias no Rio, com autorização de Goldman, mas ao chegar à cidade decidiu separar-se e obteve a guarda de Sean na Justiça.

Goldman entrou com ação pedindo o repatriamento do filho com base na Convenção de Haia, que regulamenta o sequestro internacional de crianças.

Amigos de Goldman se mobilizaram nos Estados Unidos e o caso ganhou cobertura da imprensa, levando a secretária de Estado norte-americano, Hillary Clinton, a pedir a intervenção do governo brasileiro. Em dezembro de 2009, o Supremo Tribunal Federal determinou que o menino fosse entregue ao pai, o que aconteceu na véspera do Natal.

Desde então, a família brasileira tenta na Justiça americana obter autorização para visitar Sean. Na semana passada, Silvana sofreu mais uma derrota jurídica, quando não foi permitida uma visita consular ao menino. Nela, diplomatas brasileiros se encontrariam com Sean para se certificarem de que ele está bem.

Twitter. Dias antes de falar com Sean, Silvana e os familiares criaram um perfil no Twitter (@saudadedesean) para lembrar o primeiro ano sem o garoto no Brasil. Ontem, uma mensagem falava do telefonema feito na véspera de Natal: "O Sean ligou no dia 24! Falou com a avó. Fico muito feliz que isso tenha acontecido. Todos os contatos são muito importantes!"

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