Se você não vive sem verde

Nas franjas da cidade, Anhanguera, Cajaíba e Jaraguá são os distritos onde há mais vegetação

Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

25 Janeiro 2011 | 00h00

Não havia dia fácil para aquele moço que morava no meio do mato. O trabalho já começava lá pelas 3 da manhã, quando ele largava o barraco erguido entre as árvores para enfrentar às vezes três horas de caminhada até a Lapa, onde pegava uma condução para o centro. Na volta, o mesmo trajeto - ônibus, três horas a pé e de novo aquela imensidão de verde, barulho de bicho, sem casa nenhuma por perto a não ser a do seu Artur de Brito, o dono da fazenda. Difícil era, mas não foi para fazer corpo mole que ele tinha deixado mulher e filha na Paraíba. E lá saía ele a caminhar três horas de novo.

Foram assim os primeiros meses do seu Anílson Dantas da Silva, hoje um aposentado de 88 anos, naquele começo de 1961. Hoje ele é um dos pouquíssimos habitantes do bairro - de um total de 53 mil - que já estava lá quando toda aquela terra ainda era o Sítio Santa Fé - em 1978, a antiga fazenda foi comprada pela Prefeitura. E, criador de gatos e passarinhos, não larga de jeito nenhum o endereço que adotou como seu na capital - no distrito de Anhanguera, no noroeste da cidade, o local com mais área verde em parques e praças de São Paulo.

Apesar de algumas vilas e povoados terem crescido por ali nas últimas décadas, Anhanguera ainda é um dos bairros com menos habitantes da capital - o Jardim Ângela, na zona sul, tem quase seis vezes mais, para efeito de comparação. Isso se deve à grande área de preservação criada pela Prefeitura um ano depois da aquisição da fazenda. Desde 1979, o Parque Anhanguera ocupa 9,5 milhões de m², o equivalente a seis Ibirapueras e a 1.410 campos de futebol oficiais, a menos de 30 quilômetros da Praça da Sé.

Isso tudo faz do Anhanguera o maior parque municipal de São Paulo. E seu Anílson lembra de toda essa história. "Quando o velho Brito morreu, os herdeiros venderam tudo a preço de banana. Algumas indústrias vieram, mas a maior parte das terras continua mato." Na mesma época, Anílson conseguiu trazer a família do Nordeste para o meio das árvores do distrito. "Quando chegamos aqui, era tanto mato que todo mundo chamava meu pai de Tarzan, como se ele fosse o louco que vivia dentro da floresta", lembra a comerciante Maria Gorete Dantas da Silva, de 45 anos, filha do paraibano.

Atração. Além do parque, o distrito é composto por umas poucas ruas e quase nenhuma avenida e a maior atratividade da região é mesmo a área verde. Foi exatamente isso que conquistou o produtor rural José Cláudio Rodrigues, de 40 anos, nascido em Teófilo Otoni (MG) e morador do Anhanguera há 20 anos. "Queria um lugar tranquilo, parecido à minha terra, e acabei encontrando aqui."

Apaixonado pelo bairro, Claudinho, como é conhecido, hoje é dono de um pesque-pague. Como grande parte dos moradores da área, jura que não troca o Anhanguera por nenhum outro bairro de São Paulo. "A gente aqui vive em um lugar muito tranquilo. Quando vamos lá para a cidade, vemos tudo tão sujo, tão descuidado e com tanto trânsito que nem dá vontade de voltar. Fico até um pouco triste de dizer isso, porque essa foi a cidade que nos acolheu. Mas daqui não saio."

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