'Se vivesse hoje, Dom Pedro I seria um playboyzinho'

As quase cinco horas de tomografias e ressonâncias magnéticas nos ossos de Dom Pedro I revelaram fraturas em quatro costelas - marcas ósseas de dois acidentes a cavalo que o imperador sofreu no século 19 - uma em junho de 1823, quando caiu em uma ladeira do Rio, e outra em 1829, de uma carruagem conduzida por ele. "Isso foi perfeitamente constatado pelos exames", afirma o médico patologista Carlos Augusto Pasqualucci, diretor do Serviço de Verificação de Óbitos da Capital e professor da Faculdade de Medicina da USP.

O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2013 | 02h02

O que os exames não demonstraram foi uma fratura de clavícula, o que desmente relatório médico escrito após a quedas de 1823. "É compreensível o erro no laudo, já que a fratura em questão é na primeira costela, que fica protegida pela clavícula. É até difícil entender como ele conseguiu quebrar ali", explica a arqueóloga responsável pelo estudo, Valdirene Ambiel.

Para o historiador Paulo Rezzutti, autor do livro Titília e o Demonão, que mostra a correspondência trocada entre Dom Pedro I e sua amante Domitília de Castro, a Marquesa de Santos, as fraturas dão detalhes da personalidade do imperador. "Ele era um apaixonado por velocidade. Desconfio que, se vivesse hoje, seria um playboyzinho pilotando uma Harley Davidson pelas estradas. E, bom, não devia ser muito bom 'piloto', já que vivia caindo."

As fraturas ajudam a explicar o fato de a autópsia de Dom Pedro I, conforme os arquivos da Torre do Tombo, mencionarem que a tuberculose, sua causa mortis, atacou apenas um dos pulmões. "Quando há múltiplas fraturas nas costelas, isso tende a dificultar o movimento inspiratório nesse pulmão", explica Luiz Fernando Ferraz da Silva, especialista em patologia pulmonar da Faculdade de Medicina da USP. "O bacilo da tuberculose gosta de áreas com muito oxigênio. Logo, acabou não 'atacando' o lado prejudicado."

Magra. Em relação a Dona Leopoldina, Valdirene avalia que a imagem consagrada pela iconografia oficial - de que ela era um tanto rechonchuda - não coincide com a verdade. "O natural dela era ser magra. A preservação da espinha nasal indica possibilidade de traços delicados", justifica. "Quando ela morreu, não podemos afirmar se era obesa ou não. Mas, pela ossatura, o normal seria que fosse uma pessoa esguia." Talvez o fato de ela ter vivido grávida na maior parte do tempo em que morou no Brasil tenha contribuído para que fosse retratada sempre como uma mulher gorda. "Com gravidezes seguidas, não tinha como manter um corpo normal. E, por ser originária de Viena, reclamava sempre do calor do Rio, passava mal. Isso causa inchaço."

As nove vezes em que ficou grávida nos nove anos de casamento com Dom Pedro I (sete filhos e dois abortos) deixaram marcas também na boca de Leopoldina. Exames de arcada dentária revelaram que ela tinha alguns abscessos dentários (lesões na raiz dos dentes), causados, segundo o odontolegista que participou da pesquisa, por deficiência de cálcio - sintoma comum a mulheres que têm uma gravidez seguida da outra. / E.V. e V.H.B.

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