''Se São Paulo conseguir, o resto do País também consegue''

ENTREVISTA - Renato Azevedo, Executor do Programa Paz no Trânsito, em Brasília

Renato Machado, O Estado de S.Paulo

11 Maio 2011 | 00h00

Após uma temporada na Espanha, nos anos 1990, o coronel da PM do Distrito Federal Renato Azevedo voltou decidido a fazer motoristas de Brasília respeitarem a faixa de pedestres como os espanhóis. "Eu me perguntava por que um brasileiro que aluga carro no exterior respeita a legislação e aqui não", conta o hoje oficial da reserva. Inicialmente, a ideia fracassou - o limite de velocidade era alto e faltava fiscalização -, mas depois o então comandante do Batalhão de Trânsito foi escalado para implantar o Programa Paz no Trânsito. Já no segundo ano, atropelamentos caíam para menos da metade e Brasília virava modelo para o País.

O comportamento do motorista só muda com multa?

As multas são fundamentais, mas um projeto para reduzir a violência no trânsito nasce antes. Precisa ter começo, meio e fim. O começo está nos estudos realizados pelos técnicos, o fim é o trabalho nas ruas. Educamos primeiro nossos agentes públicos, depois professores e frotistas, motoristas de táxis e ônibus. Esses frotistas foram importantes com pequenas ações, como alertar motoristas ao lado a parar nas faixas.

E como foi nas ruas?

Primeiro, ficamos três meses treinando os motoristas nas 500 faixas de pedestres que tínhamos em Brasília. O policial mandava parar o carro nas faixas e os motoristas foram se acostumando. Depois os agentes ficaram dois meses fora da faixa só observando, de longe. Então, no dia 1.º de abril de 1997 (seis meses após o início), começaram as multas.

Houve repercussão negativa pelo aumento das multas?

Reclamaram que estávamos multando escondido. Mas o agente não faz parte da relação pedestre-motorista, não havia por que ele ficar lá (na faixa). Depois, aceitaram, porque diferenciavam a multa aplicada por radar das infrações contra pedestres. Houve aumento no início, depois caiu.

Pesquisa mostra que 40% dos motoristas paulistanos temem parar na faixa e ser atingidos na traseira. Isso aconteceu?

A colisão na traseira é uma realidade e houve explosão nos primeiros três meses. Se antes havia uma batida traseira para cada dez acidentes, depois passou para seis em dez. Mas esses índices caíram, porque os motoristas se acostumaram.

A fiscalização precisa ser permanente?

Hoje não há agentes nas faixas, mas é só alguém erguer a mão que o carro para. Mas o programa precisa ser bem feito antes.

Um programa desses tem chances de dar certo em SP?

São Paulo tem uma grande frota e uma quantidade imensa de pedestres sem informação. Mas pode dar certo, se houver educação e fiscalização eficientes. E seria muito bom dar certo, porque, se São Paulo conseguir, o resto do País consegue.

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