Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE

'Se pagar mensalinho aqui, mensalinho ali, ninguém denuncia, diz Rezeck

Ex-prefeito de Barretos diz que foi perseguido por inimigos políticos: 'Se não tivesse confiança no meu trabalho, não estaria aqui'

William Cardoso, O Estado de S. Paulo

10 Maio 2011 | 00h01

SÃO PAULO - O secretário municipal de Participação e Parceria, Uebe Rezeck, afirmou ser um homem que tem "lembranças gostosas" do tempo em que recebia ovos, frangos e requeijão como pagamento pelas consultas como médico, quando chegou a Barretos, nos anos 60. "Era uma época romântica", disse. Ele atribuiu as 93 ações como réu em sua cidade aos desafetos criados durante mais de 40 anos na vida pública. Também falou que, quando retorna à cidade onde foi prefeito por três mandatos, não tem tempo para o lazer e que prefere ir ao hospital do qual é dono, onde dá consultas a pacientes antigos, com mais de 45 anos de tratamento. "Sempre fui o médico dos pobres", disse ao Estado, na última sexta-feira, em seu gabinete na capital, acompanhado da assessora jurídica da pasta. Ele recorre das seis condenações judiciais.

 

Qual a posição sobre o fato de ter sido condenado por receber e dar ao vice-prefeito as férias vencidas e 13º?

 

O desembargador, o ministro do Supremo, o governador, deputados e senadores, secretários, todos os assessores da prefeitura recebem férias e 13º. O prefeito, dizem que não. O Tribunal de Contas decidiu que cabe ao prefeito receber. Eu recebi. Onde há improbidade? Está em Brasília e vou ganhar, com a graça de Deus. Eu recebi 13º e férias, mas eu não roubei, eu trabalhei. Eu ficava na prefeitura até as 22h. Já tinha recebido outras vezes e pedi no fim do mandato, porque o outro prefeito não iria me pagar.

 

E sobre a contratação da sobrinha, acusada de ser funcionária fantasma na Secretaria Municipal da Saúde?

 

Essa moça atuou na Secretaria Municipal da Saúde, que recebeu um recurso do governo federal para um projeto. Contrataram algumas pessoas, entre elas essa moça. Ela trabalhou, mas como era um projeto, ela não era funcionária pública de ninguém. Não tinha ponto assinado. A diretora da regional de saúde, o secretário, (todos) diziam que ela trabalhava. O dinheiro não era da prefeitura, o prefeito não pagou, não dependia de nomeação. Não tem pé nem cabeça (a acusação), mas quando não se faz parte de uma quadrilha, quando se trabalha honestamente, toma-se pancadas de todos os lados. Não nomeei, não era funcionária pública.

 

A Justiça também o condenou por ter alugado o imóvel da mulher de um vereador sem licitação.

 

Prefeito não aluga imóvel. A secretaria foi quem procurou o imóvel mais barato, com acesso a portador de deficiência, preço menor que o anterior. Estava no nome da mulher do vereador. Não passou pelo prefeito, mas não teria problema nenhum se passasse. Onde é que tinha improbidade, meu Deus do céu? Como vai promover concorrência para alugar uma casa? É preciso buscar o lugar necessário.

 

 

Houve uma condenação também pela divulgação do seu nome e de símbolos da sua campanha em cartões de Natal e em placas nas obras da cidade.

 

Em qualquer lugar, em São Paulo, no Brasil e no exterior vê se não tem o nome de quem fez? O homem público tem que ter orgulho do que faz, e eu mudei a minha cidade. A minha vida inteira fiz cartão de Natal às minhas custas. Comprovamos que não havia um tostão da prefeitura, mesmo assim fui condenado. É um absurdo. É uma denúncia vazia, mas fazer o quê? Faz parte.

 

 

E sobre a interrupção no repasse de verbas à Câmara de Barretos, quando era prefeito?

 

Repassávamos todo mês o duodécimo da Câmara, que pegava o dinheiro e aplicava no banco. Eu estava precisando de dinheiro e eles com dinheiro aplicado. Então, durante um mês, atrasei a parcela, que foi paga em duas vezes, e o presidente da Câmara entrou com uma ação. No fim do ano, devolveram R$ 1,2 milhão. Se devolveram, então faltou dinheiro para a Câmara? Deixou de fazer alguma coisa? Não.

 

 

A Justiça também o condenou por nomear indevidamente um funcionário como chefe de setor.

 

Ele é um funcionário de carreira, com mais de 20 anos de serviço, que entrou por concurso e passou por vários prefeitos.

 

A Justiça obrigou o senhor a devolver R$ 94.200 por pagar com dinheiro público um escritório de advocacia da capital para defendê-lo em processos por improbidade administrativa. O que pensa a respeito disso?

 

Foi feito o contrato, dava R$ 4,5 mil por mês para defender a prefeitura. Aí, tem o parecer, inclusive do Ministério Público, dizendo que o valor era ínfimo e o processo foi arquivado. Era abaixo do valor de mercado. Se estivesse pagando R$ 500 mil.... Se mandar meu advogado de Barretos vir aqui, com diária, hotel, daria muito mais que isso. Não era o Uebe que estava sendo defendido, era o prefeito. É preciso separar o cidadão do cargo que ele ocupa. Hoje, aqui, eu não sou o Uebe, sou o secretário municipal. Qualquer coisa que eu fizer, eu pago, mas sou secretário municipal, com procurador para me defender. Sem o cargo, eu ficaria no meu consultório, ganharia muito mais, todo mundo me pagaria e agradeceria. Como estou na vida pública, é pedrada o tempo todo.

 

O senhor foi alvo também de uma medida cautelar para investigá-lo sobre suspeita de enriquecimento ilícito. A construção de uma casa avaliada em mais de R$ 1 milhão levantou dúvidas sobre isso.

 

Comecei a construir uma casa (na época). Tenho 40 anos como médico e um hospital na cidade com 35 médicos trabalhando. Hospital geral, com UTI, raio-x, laboratório e centro cirúrgico amplo. A casa era de R$ 1 milhão mesmo, qual o problema? Eu tenho renda, uma profissão, tenho ganhos, não posso construir uma casa? Disseram que eu coloquei um elevador. Tenho uma prótese de joelho, duas operações no coração. Um elevador, sabe quanto custa? R$ 30 mil. Aí, abriram e depois arquivaram.

 

Outra medida cautelar pediu que comprovassem que os funcionários de seu gabinete não eram "fantasmas". O que aconteceu?

 

É um outro erro. Vai ser arquivado. O deputado estadual não trabalha só no gabinete. Pode ter escritório na sua sede. Devo ter atendido cerca de cem municípios. Está tudo comprovado. Não tenho nada a esconder.

 

Qual a sua posição sobre a Lei da Ficha Limpa?

 

Foi feita a toque de caixa, sem alguns cuidados. Não posso pegar o indivíduo que é ímprobo, desonesto, que fez uma administração incorreta, superfaturamento e colocar na mesma lata de lixo que outros. Pessoas que têm problemas gravíssimos e pessoas que tiveram, digamos assim, um erro de uma licitação, que não houve prejuízo para a população. Joga todo mundo na mesma lata de lixo.

 

Quais os motivos das acusações contra o senhor em sua cidade?

 

Se fizer parte de uma quadrilha, pagar mensalinho aqui, mensalão ali, ninguém denuncia nada. Agora, quando não molha a mão de ninguém, faz a coisa correta e demite alguém que estava roubando, aí você paga por isso. Nem por isso deixei de ser prefeito por 12 anos, ganhei três vezes. Na última eleição para deputado estadual, tive mais de 68 mil votos. A população de Barretos está dando o atestado de que tenho agido corretamente. Se passar em Barretos e perguntar para qualquer um, dizem "pelo amor de Deus, tem que voltar". Deixei a prefeitura redondinha, todas as obras importantes fui eu quem fiz. Me neguei a me compor de uma maneira que não fosse honesta e decente.

 

Pretende voltar a ser prefeito de Barretos?

 

Não dá para voltar. Já cumpri minha obrigação. Foram 12 anos como prefeito enfrentando isso. Se voltar, dá um processo por dia outra vez. Eu tenho 75 anos. Chega uma hora em que devo me aposentar, pendurar as chuteiras.

 

Se julga apto a assumir o cargo de secretário na capital?

 

Meu irmão, eu tenho 75 anos. Não sou nenhum garoto, nenhum aventureiro. Por onde passei, fiz um belíssimo trabalho. Fui secretário do Interior, chefe de gabinete do Ministério da Indústria e Comércio, deputado três vezes, prefeito três vezes e vice-prefeito. Por onde passei, saí de cabeça erguida. Se não tivesse confiança no meu trabalho, não estaria aqui. Mesmo porque, sou médico e tenho meu hospital. Deixei lá e estou aqui porque acredito em alguma coisa. A experiência de vida, a minha profissão, que me ensinou mais a ouvir do que a falar. Vou ficar 30% aqui e 70% na rua, visitando, indo nas entidades conveniadas, cobrando quando for preciso. Não vim para me divertir.

 

O que faz quando volta a Barretos?

 

Vou para o hospital, dou consultas para pacientes antigos. Meu tempo de lazer ficou muito reduzido. Tenho paciente de 45 anos de tratamento. Minha formação é obstetrícia e ginecologia, mas quando me formei se atendia tudo. A mulher, a filha, a sogra, o marido. Eles (pacientes) traziam uma dúzia de ovos, um frango, um requeijão, alguma coisa para agradar. Sempre fui o médico dos pobres. Quando cheguei a Barretos, tirava o meu domingo para atender à conferência dos Vicentinos, sem cobrar nada. Era uma época romântica. Tem as lembranças gostosas. Às vezes, vou dar uma consulta, demoro 40 minutos, uma hora, deixo a pessoa desabafar, vou examinar. Hoje, se entra no consultório, toma um remédio e vai embora. Eu sou de outra época, e acho que a minha época está passando. Em 1968, fui candidato a vice-prefeito, quando medebista era comunista, o diabo a quatro. Colocava em caneta vermelha o grupo sanguíneo, fator RH, para destacar. Invadiram o meu consultório à noite, reviraram tudo, porque eu usava uma caneta vermelha.

 

Com é a relação de amizade com o vice-presidente Michel Temer?

 

Amizade a gente não questiona, é uma bênção de Deus. Eu era amigo do Quércia e do Michel, então muitas vezes coloquei os dois juntos para conversar, almoçar. É a minha maneira de ver o mundo, as coisas. Hoje, estou numa missão provisória do PMDB aqui.

Mais conteúdo sobre:
Gilberto KassabUebe Rezeck

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.