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Fernando Reinach
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Se o olho não vê o bolso não sente

O ser humano é um animal cooperativo por natureza. Mas em todas as sociedades a desigualdade corre solta. Alguns acabam mais ricos que outros. Faz séculos que os cientistas tentam descobrir os comportamentos que provocam a desigualdade. Uma nova rota de investigação consiste em usar jogos cuidadosamente desenhados para observar o comportamento do ser humano durante sua interação social. Em um novo experimento, os cientistas demonstraram que o simples fato de um indivíduo observar a desigualdade existente no grupo induz comportamentos que aumentam a desigualdade.

Fernando Reinach, O Estado de S. Paulo

24 de outubro de 2015 | 03h00

Os jogadores são recrutados pela internet. Eles se inscreviam e eram alocados em grupos de 20 pessoas. Durante o jogo, virtual, cada membro do grupo mantém relação com outros cinco. Um jogador aparece na tela como um círculo central (você), conectado a outros cinco círculos, os outros jogadores com quem você mantém relação. No início de uma rodada aparece um número no centro do seu círculo (digamos 500, que é a quantidade de dinheiro que você tem). No momento seguinte, você tem de decidir se quer ou não doar dinheiro para os outros jogadores. Se decide doar, 10 dinheiros são retirados de sua conta para cada jogador a quem você está conectado. Esse valor é duplicado e depositado na conta de cada um. Isso mesmo, você doa 10 e eles recebem 20.

Em seguida, o saldo é atualizado e aparece no centro dos círculos. Se você decidiu não doar, seu valor não diminui, mas pode aumentar caso seus parceiros tenham doado para você. Neste jogo, se todos sempre doarem, todos enriquecem juntos. Por outro lado, se você tem certeza de que todos vão doar, sua melhor estratégia é não doar. Você não perde nada e recebe de todos.

Mas tem um complicador. Depois de cada jogada, você pode decidir se quer ou não continuar interagindo com cada um dos parceiros. Se você sempre doa e desconfia que um jogador nunca doa, pode excluir esse parceiro de suas relações. Nesse caso, o computador aloca aleatoriamente um outro parceiro. Feita a nova rede, começa um novo round. E o jogo continua por 10 rounds. No fim, cada jogador recebe um centavo por ponto acumulado. Dinheiro de verdade. E os cientistas têm os dados para analisar.

Um total de 1.462 pessoas participaram do experimento. Foram 80 partidas, divididas em oito grupos. Nos primeiros quatro grupos, os jogadores só podiam ver os valores que eles mesmo acumulavam a cada rodada, os dos parceiros estavam ocultos (grupos sem visibilidade). E nesses quatro grupos foi variado o grau de desigualdade. Num grupo todos os jogadores começavam com a mesma quantia (500), no segundo a desigualdade inicial era pequena (300 a 700), no terceiro a desigualdade era maior (350 a 850) e no quarto a desigualdade era alta (200 a 1.150). Nos quatro grupos restantes, as condições iniciais eram as mesmas no quesito desigualdade, mas com uma diferença importante. Todos os jogadores podiam observar o saldo de cada jogador em cada rodada (grupos com visibilidade). Dado esse arranjo, os cientistas puderam comparar o comportamento dos jogadores em diversos níveis iniciais de desigualdade, com ou sem visibilidade da “riqueza” de seus parceiros.

Aqui vão as principais conclusões. Mesmo quando a desigualdade inicial é zero, ela tende a aparecer durante o jogo, mas nesse caso na mesma intensidade, independentemente da visibilidade. No caso de desigualdades iniciais médias, a desigualdade aumenta no caso com visibilidade e diminui no sem visibilidade. E quando as condições iniciais eram muito desiguais, o efeito da visibilidade é mais pronunciado, aumentando rapidamente a desigualdade.

A conclusão é que nosso comportamento provoca a desigualdade mesmo quando as pessoas partem de uma situação de total igualdade. Mas, quando a desigualdade já existe, ela tende a aumentar rapidamente quando podemos nos comparar com os demais. Em suma, inveja e exibicionismo provocam comportamentos que aumentam a desigualdade entre os homens. Como diria minha avó: grande novidade.

MAIS INFORMAÇÕES: INEQUALITY AND VISIBILITY OF WEALTH IN EXPERIMENTAL SOCIAL NETWORKS. NATURE VOL. 526 PAG 426 2015

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