Se não falta profissional, falta hospital pelo Brasil

Cidades têm estrutura sem médico ou têm especialista, mas sem local para atendimento

O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2013 | 02h03

A crise da saúde deflagrada pela falta de médicos revela realidades distintas pelo País. Há municípios brasileiros que têm hospitais, mas não conseguem colocá-los em funcionamento por falta de condições financeiras e de profissionais especializados. Em outros, há médicos, mas nenhum local apropriado para atendimento. E há até cidades em que falta infraestrutura e, mesmo assim, a prefeitura dispensa tanto a construção de um hospital quanto a vinda de médicos estrangeiros.

Em Barra do Ribeiro, a 60 km de Porto Alegre, a população de 12 mil habitantes espera pela inauguração de um hospital há 13 anos. A unidade foi construída com recursos federais, estaduais e municipais nos anos 1990 e equipada em 2000.

Hoje, só há o serviço de um clínico-geral e de enfermeiros, e nada mais. Equipamentos para raio X, ecografia, bloco cirúrgico, laboratório e 50 leitos estão lacrados. O custo total é estimado em R$ 6,5 milhões.

Sem opção, a dona de casa Vera Lúcia da Silva Garcia, de 48 anos, reclama da precariedade. "Tive dores no corpo há uma semana, fui atendida e medicada com uma injeção. Isso resolveu o problema, mas não apontou causa e solução", diz. "Gostaria de ter ao menos um traumatologista e um raio X."

O hospital se tornou inviável para a prefeitura, comprometendo 60% do orçamento. Cálculos atuais indicam que o custo mensal seria de R$ 1,1 milhão com operação e plano assistencial com ginecologia e obstetrícia, clínica geral, pediatria e pronto-atendimento. A Federação das Santas Casas, Hospitais Beneficentes, Religiosos e Filantrópicos fez inventário das instalações e prevê reformas de R$ 2 milhões. Os custos serão apresentados ao Estado.

O secretário estadual da Saúde, Ciro Simoni, diz que o governo está pronto para contratar os serviços, mas afirma que Barra do Ribeiro não apresentou proposta sobre administração direta ou terceirizada. "Eles (o governo estadual) vão nos dizer se escolhem um ente para administrar ou se deixam para nós e, se for o caso, faremos um chamamento por edital", diz o prefeito Luciano Boneberg (PSD).

Sem infraestrutura. Próspera economicamente, São Gonçalo do Rio Baixo, a 84 quilômetros de Belo Horizonte, não tem hospital. Os 10 mil habitantes da cidade que abriga uma das maiores minas de ferro do País, a Brucutu, da Vale, precisam viajar para receber atendimento. A alternativa encontrada pela prefeitura é custear médicos do Programa de Saúde da Família. Enquanto isso, diariamente, dois ônibus levam pacientes à capital mineira.

"Faz muita falta um hospital aqui. Mesmo quando a gente consegue vaga em outra cidade, e nem sempre consegue, o paciente tem de se deslocar, dificulta para a família", diz o aposentado José Carlos Benício, que tem 11 filhos e 11 netos.

"Há poucos dias, a mulher do meu neto, grávida de 8 meses, passou mal e não teve como ser atendida aqui. Tiveram de correr para Belo Horizonte", diz Benício.

O tão sonhado hospital está em construção. A obra custará R$ 16 milhões. Em 4 mil m², haverá 34 leitos. "O hospital é um anseio antigo da população. Causa uma angústia muito grande o fato de nem parto poder ser realizado aqui", diz Renata Fonseca, secretária da Saúde.

Nem um nem outro. "Não quero hospital nem médico estrangeiro. O que nós precisamos é de ajuda para fazer funcionar uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e recursos para pagar melhor os profissionais." A afirmação é de Daniela Brito (PSB), prefeita da pequena Monteiro Lobato, cidade com cerca de 5 mil habitantes no Vale do Paraíba.

O município não tem hospital público nem clínicas ou consultórios particulares. O único recurso é o centro de atendimento, do SUS, com um clínico-geral terceirizado. Os pacientes de urgência são enviados para São José dos Campos.

A prefeitura tem arrecadação de R$ 12 milhões por ano e aplica 27% dos recursos em saúde. "Construir um hospital aqui seria desperdício", afirma o médico Carlos Eduardo Monteiro, clínico contratado para atender em média 30 consultas diárias. Para ele, atendimento básico resolve 90% da demanda.

Daniela concorda, e declara que, no mundo ideal, haveria um hospital no município, mas afirma que na conjuntura atual isso não é necessário nem prioritário. Ela quer mais recursos para comprar equipamentos, contratar mais médicos e pagar melhores salários. O médico ali ganha R$ 2.370,11 (20h) ou R$ 4.657,00 (40h).

Com apenas um médico, o centro de saúde fez em maio 1.056 atendimentos - 16 casos de internação. "São poucos os casos de gravidade. Nós levamos os pacientes para São José e fornecemos o transporte para as famílias depois", diz a assistente de saúde Efigênia de Souza e Silva, coordenadora do programa ambulatorial.

No dia 24 de junho, a Câmara produziu documento com as demandas locais. De acordo com a ata, o centro de saúde enfrenta problemas com desfibrilador, que não funciona, falta de respirador, falta de material para ortopedia e demora nos exames, além de não ter pediatra.

Segundo Daniela, os atuais problemas existem porque a administração anterior parou de fazer compras em setembro do ano passado. "Já estamos fazendo nova licitação e queremos contratar um pediatra", diz.

Alheia ao debate sobre gestão, a paciente Paloma dos Reis, de 25 anos, procurava atendimento no posto na sexta-feira pela manhã. Depois de receber inalação, desabafou: "É difícil quando tem de fazer um tratamento em São José dos Campos". E emendou: "E também quando ele (o médico) vai acompanhar paciente, a cidade fica sem médico". / PABLO PEREIRA. ENVIADO ESPECIAL A MONTEIRO LOBATO (SP), ELDER OGLIARI e ALINE RESKALLA, ESPECIAL PARA O ESTADO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.