'Se ele era doente, por que a família não ajudou?'

Bárbara Calazans Laino tinha 18 anos quando foi assassinada pelo músico Bruno Kliegierman, usuário de crack, no apartamento onde ele morava, no Flamengo, zona sul do Rio, em 24 de outubro de 2009. Bárbara tentava convencer o amigo a não fumar crack. Acabou estrangulada. Na terça, Bruno foi condenado a 14 anos de prisão.

HELOISA ARUTH STURM / RIO, O Estado de S.Paulo

05 Março 2012 | 03h01

Em entrevista ao Estado, a assistente social Carmen Calazans, mãe de Bárbara, fala sobre a dor vivida nos últimos dois anos. "A família do assassino vai visitá-lo na prisão. Isso é um direito e deve continuar assim. Mas a família da vítima vai visitar o cemitério."

A seguir, o depoimento de Carmen:

"Sempre que as pessoas me perguntam e se solidarizam com a minha situação, vêm, em primeiro lugar, a tristeza e as lembranças das coisas boas que eu nunca mais vou ter com a Bárbara. Ela era uma menina que conservava os amigos, sabia ouvir. Era uma artista. Sempre que vejo as reportagens, dizem 'músico é condenado'. Nunca ninguém fala 'Bárbara, pintora, artista, desenhista', é sempre 'a jovem estudante'.

Fiquei muito abalada, principalmente pela forma como aconteceu. O assassino e a família dele reconheceram que isso nunca poderia ter acontecido. É muito fácil você se resguardar por meio de uma coisa. Porque a droga é apenas uma coisa. A gente tem de diferenciar o que é um objeto do que são as pessoas. A droga não pode se responsabilizar por aqueles que a usam.

Ele não usou nenhum instrumento para matar a minha filha. Usou as próprias mãos. Ele realmente tinha uma fixação na Bárbara, como amigo. E essa fixação pode ter ido longe demais. Nunca vamos saber o que aconteceu, mas de uma coisa tenho certeza: Bárbara foi solidária, foi amiga. Agora ele pede desculpas. O perdão faz parte de uma grandeza. Ele está perdoado. Mas isso não é uma questão pessoal.

Sou assistente social, formada em Psicologia e Psicopedagogia, e não posso deixar de ter uma opinião profissional a esse respeito. Você consegue, como é o caso, matar uma pessoa com as próprias mãos, mas você não deve se esconder, nem nas drogas nem no álcool, de suas deficiências, ou de suas doenças, porque isso é muito fácil. O que eu realmente defendo é a responsabilização das pessoas e/ou das famílias. Porque se a família alegava que ele era um doente, por que ela não estava perto, por que ele não morava com a família? Por quê? Então, é pedagógico, é social que a justiça se faça.

Tenho participado de projetos de apoio. Um deles é o Centro de Referência Especializado de Assistência Social destinado à população em situação de rua, um espaço que tem o nome da minha filha, Ateliê Cidadão Bárbara Calazans, que trabalha com artes e artesanato, encaminhando as pessoas para redes assistenciais. E participo da ONG Amor Eterno.

Quero criar uma instituição ligada à arte, mas voltada para a Justiça, para ajudar aqueles que não entendem como a vida de seus filhos foram ceifadas."

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