Saque em nome da ordem é desordem

Mesmo em casa de traficante, a pilhagem não pode acontecer sob a vigilância de soldados, para não oficializar desordem como nova ordem

Marcos Sá Corrêa, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2010 | 00h00

Nada menos intuitivo do que aterrissar no Rio e distinguir lá embaixo, no labirinto das favelas que abraçam a Baía de Guanabara, um Complexo do Alemão enfim reabilitado. Vista assim do alto, a favela deixou faz tempo de parecer um céu no chão. E, à primeira vista, o Complexo do Alemão continua o mesmo.

Diferente mesmo, praticamente irreconhecível, ele está por enquanto nas notícias de seu dia a dia. Mudou de imagem sem mudar de cara, pelo serviço limpo dos policiais que enxotaram daquele condomínio de 25 favelas e 30 mil domicílios pelo menos uma centena de chefões e capangas do tráfico.

Há muito o que festejar na operação policial, organizada e, por isso mesmo, quase incruenta. Nas toneladas de drogas apreendidas. Nas cifras estratosféricas das baixas impostas aos estoques de cocaína, maconha, crack e lança-perfume. Nas crianças brincando ao cair da noite das ruas reabertas aos moradores. No passeio dos repórteres pelo Complexo do Alemão liberado, para ver de perto como as pessoas estão agora tranquilas e confiantes, mesmo se seu favela tour teve de ser a bordo de um carro blindado da Marinha, a lagarta anfíbia de 23 toneladas que veio para acabar com a valentia dos Caveirões da PM.

Isso tudo faz diferença? Sim. Faz toda a diferença? Não. Falta, por exemplo, uma palavra oficial qualquer para desmanchar a má impressão deixada por uma das primeiras imagens dessa campanha vitoriosa. Nela, festeja-se o saque e a depredação do bunker de um traficante. Por coincidência, a casa ficava numa rua chamada Gente Boa. Por acaso, seu dono atendia pelo apelido de Pezão, o mesmo do vice-governador reeleito Luiz Fernando de Souza, futuro secretário de Obras. Era como se ali funcionasse até poucos dias atrás um Rio simétrico ao Rio que não começa ou acaba no Complexo do Alemão. E, por isso mesmo, de cabeça para baixo.

E no dia em que as autoridades legalmente constituídas tiveram a chance de botar aquilo de pé, quem sabe para usá-lo como equipamento a serviço da favela, deixaram os moradores virá-lo pelo avesso, levando o que tinha valor e destruindo o que não podiam arrancar. Quebraram até os espelhos do clube privê, onde os mandachuvas do Complexo do Alemão exerciam suas prerrogativas recreacionais.

Saques e depredações são coisas que acontecem espontaneamente, até nas verdadeiras revoluções, desapropriando na marra ou demolindo na pressa os símbolos de poder e opulência material da velha ordem que acaba de cair.

Mas, mesmo em casa de traficante, a pilhagem não pode acontecer sob a vigilância de soldados, para não oficializar desordem como nova ordem. E com isso dar razão a quem ainda acha que, na rua da Gente Boa, quem põe ordem é traficante. Se ele virar as costas, volta a valer tudo.

Essa figura mitológica de traficante pacificador foi uma das miragens sociológicas que ajudaram o Rio de Janeiro a se esconder atrás das grandes, virando a cidade que virou. Houve tempo que até ex-presidente do Banco Central negociava com dono de morro a devolução de uma bicicleta, roubada por ladrões comuns na borda da Lagoa Rodrigo de Freitas.

O preço daquela bicicleta era a liberdade na favela e a segurança no resto da cidade. Assim como o preço do quebra-quebra consentido no Complexo do Alemão é flagrar os representantes da ordem e da segurança pública dando tiros pela culatra.

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